“Fulano vive numa bolha”.
Esta expressão, conhecida por praticamente qualquer pessoa, contém uma metáfora. Metáfora, como alguns se lembrarão, é a designação de um objeto ou qualidade que designa outro objeto ou qualidade que tem com o primeiro uma relação de semelhança. Os exemplos seriam quase infinitos: vontade de ferro; magro como um palito, quente como o Sol, etc...
Viver numa bolha, portanto, é uma figura de linguagem. A bolha que pensamos, no caso, não seria aquela bela e translúcida feita com água e sabão, mas quer significar que a pessoa busca viver rodeada por aquilo que lhe agrada mais, impermeável a influências, ideias ou práticas diferentes das que prefere. Seria meio que tapar os olhos e ouvidos para o diferente. Isolamento. Bem, são estas as minhas impressões quando ouço a expressão “Fulano vive numa bolha”. E, no caso, não a considero uma condição ideal. Pode até ter alguns aspectos positivos, mas a maioria dos efeitos dessa postura será limitante.
Outra forma de entender aquela frase, tomando-a agora na literalidade, poderia significar um ambiente com segurança tal - real, onde literalmente entramos - que nenhuma ameaça externa, física ou biológica, nos afetaria. Uma barreira intransponível, colocada para evitar os malefícios do mundo exterior. Um abrigo sanitário. Ou um bunker. Puxo aqui na memória a cena dum filme que vi numa Sessão da Tarde, lá pelos idos de 80 ou 90, em que um milionário se mantinha vivo numa espécie de bolha médica, cheia de tecnologias e recursos. No caso, a estrutura não visava a alongar sua vida, numa utopia de imortalidade; o personagem tinha algumas fragilidades em sua saúde, e qualquer contaminação poderia ser fatal.
Por fim, para finalizar o começo do escrito, falemos também de uma espécie de bolha que tem a ver com cada um de nós. Todos já estivemos lá, embora não lembremos. No tempo certo, pulmões maduros, pessoinhas formadas, viemos à luz. Vida exterior começando. A bolha uterina foi nosso primeiro lugar em vida. Lá já havia vida, claro. O fato de haver debates sobre seu termo inicial, se com X, Y ou Z semanas, para mim é tempo perdido. Havida a fecundação, com a união dos gametas masculino e feminino, e gerado o zigoto, que passa a multiplicar-se avassaladoramente, temos vida. Se não houvesse, tudo ficaria estático. Vida é sinônimo de movimento. Não por acaso, seu termo final será marcado justamente pela inércia absoluta. Mas o povo gosta de complicar, né...
Uma bolha metafórica (lugar de isolamento). Uma bolha médico-tecnológica (lugar de proteção máxima). Uma bolha uterina (lugar de formação para a vida exterior). Vários tipos de bolhas. E há outras. Falaremos de mais duas.
A bolha de sabão é uma estrutura frágil, leve, dinâmica, instável. Deve haver outras propriedades, mas não pesquisei. Quando escrevo, raramente investigo detalhes na internet, pois gosto de puxar na memória aquilo que me lembro, o que eu sei das coisas; também algumas impressões, ou o que penso saber das coisas; e certamente muitos pitacos, ou seja, aquilo que eu acho que sei, mas pode estar certo ou errado. Costumo acertar. Basta ter bom senso e lógica. Mas abri uma exceção e fiz rápida pesquisa sobre bolhas de salão. Encontrei que ela é uma estrutura estudada seriamente pela Matemática. Dentre outros objetivos, para tentar compreender o que acontece em volta dos buracos negros. Básico. Trivial.
Ao misturarmos água e sabão, passando essa solução por uma estrutura de arame, soprando ou então fazendo um movimento rápido com a mão, aprisionamos certo volume de ar e surge uma bolha de sabão. Aquela bela, leve e flutuante estrutura translúcida que encanta as crianças. Ela contém uma propriedade rara, que é a que chama a atenção dos centistas: SUPERFÍCIE MÍNIMA. Para se ter uma ideia da importância do tema, recentemente um jovem matemático recebeu o Prêmio Carlos Gutierrez de Teses de Doutorado, que reconhece a melhor tese em Matemática no Brasil. Bolhas de sabão, galera. Bolhinhas de sabão... Quem diria que a brincadeira de criança tem algo a ver com Geometria e Equações Diferenciais, fenômenos celestes, teses de Doutorado e pós-Doc, ligas metálicas, Engenharia. O céu é o limite. E é para lá que as bolhas vão... se o vento ajudar.
Não vou cansá-los com tantos detalhes, mas vale anotar duas curiosidades legais: 1) o recorde brasileiro de maior bolha de sabão foi obtido em 2013 por um paranaense: 7,36 metros! e 2) o recorde mundial foi estabelecido em 2012 em Vancouver, quando 181 pessoas foram colocadas dentro de uma bolha. Na gringa os recordes são pela quantidade de pessoas “embolhadas”, enquanto no Brasil o que vale são as medidas. Bora lá! Pesquise no Tio Google e mate sua curiosidade com as imagens desses recordes.
Pincelamos então umas ideias sobre quatro tipos de bolhas, para finalmente, depois de eu te enrolar com meu velho e conhecido novelo textual, capturar sua atenção e começarmos a conversar sobre o que realmente importa. Um quinto tipo de bolha: O REFÚGIO MENTAL.
Essa bolha é diferente das quatro anteriores, mas contém um pouco de cada. A melhor parte de cada. Chegaremos lá. Antes, porém, importa dizer que um refúgio mental é importante. Precisamos ter. Refúgio remete a um lugar de proteção. A mente é o objeto que será protegido. Disse da importância desse lugar, porque entendo que hoje uma das coisas mais desejadas de quem detém o poder é conseguir capturar mentes. Comercialmente falando. Politicamente. Emocionalmente. Espiritualmente. Em tantos e quantos “...mentes” possíveis, objetivo máximo é fisgar mentes. Nossa atenção é o grande prêmio. Uma mente capturada vale ouro.
Não por acaso, há tanto investimento em tecnologias para entender nossos hábitos, preferências, padrões de consumo, temas de interesse. Basta você buscar no Tio Google uma expressão qualquer, que no minuto seguinte todos os seus ambientes virtuais começarão a receber sugestões relacionadas. O algoritmo não descansa. Ele está sempre por aí, a rodear a terra e cirandar por ela... Negócio é cabuloso, tem horas que assusta. Mas está tão cristalizado no nosso jeito superconectado de ser, que não nos damos conta. Ou não ligamos. “Ligar pra quê? O negócio é bom, faz o serviço por mim. Nem preciso perder meu tempo procurando nada. Vem tudo na mão”.
E aí está o grande problema. Ao aceitarmos passivamente que alguém, ou algo, ou sei lá o quê, com sei lá qual intenção, pense por nós, no que seríamos diferentes dos desumanizados seres vivos aprisionados nas bolhas-máquinas-uterinas da fictícia Matrix? Aquela cena dramática dos “campos sem fim”, de pessoas semi-vivas, cultivadas com a única finalidade de produzir energia. Aquele filme é muito forte. Ele mexeu comigo há 20 anos, quando surgiu. Continua mexendo hoje. Não tem como não pensar muito sério a respeito.
As pessoas nascidas na fictícia Matrix não se davam conta das estruturas que as dominavam. Afinal, nasceram nela, com tudo funcionando como deveria ser. Em nossa Matrix real ocorre rigorosamente o mesmo. Os mais novos, nascidos em gerações recentes, não conheceram o mundo analógico. Eu não apenas conheci, como vivi essa transição. Tenho um pé no passado e outro no presente-futuro. Eu não tenho o plug na nuca. Considero isso uma dádiva. Sim, porque isso me permite ver algumas coisas pelos olhos da geração que tinha ideias próprias, conhecia pessoas da forma antiga, telefonava, saía para pesquisar preços e comprar coisas, fazia uma viagem sem saber como estaria o tempo e as condições do trânsito, recorria à Tia Barsa para fazer um trabalho escolar. E o trabalho tinha que ser feito à mão, letra bonita. Old School!
Calma, calma. Não desprezo em nada os avanços tecnológicos. Apenas fico alerta ao que a tecnologia pode – E QUER – fazer comigo. Eu tenho uma Enciclopédia Barsa na minha biblioteca pessoal, mas não prego que todos tenhamos que voltar para ela. O Tio Google é incomparavelmente melhor para pesquisas. Só que a Barsa não moldava seu conteúdo, a depender de minha última visita, para fazer-me ver apenas temas semelhantes. Não. Ela permanecia como era, rica e variada, limitada sim, mas honesta e disponível com o conteúdo que possuía, para que EU FIZESSE A ESCOLHA do que queria ver na pesquisa seguinte. Eu pensava num verbete qualquer, ou abria suas páginas aleatoriamente, e começava a ler. Eu aprendi a ler nela, por isso tenho uma no acervo.
O Tio Google, diferentemente, metamorfoseia-se permanentemente para levar aos seus olhos o que você viu recentemente, ou algo novo que ele quer que você veja, privando-te de todo um universo de diversidade de conhecimento. Ele cria a BOLHA RUIM, a limitante, a castradora de horizontes. Neste sentido, ele é terrível. A título de sugestão, indico o documentário “O Dilema das Redes” (Netflix), que me gerou profundas reflexões sobre meu uso da internet e sobre a hiperconexão. Se puder, assista.
Mas então, o que fazer? Se existe esta estrutura pensada para capturar minha mente, qual a saída? Ficar OFF total? Fugir para as montanhas? Não parecem ser opções viáveis.
FOGO CONTRA FOGO. Você vai enfrentar a bolha ruim com uma boa. A sua bolha. E vamos aprender juntos a fazê-la. Lembra-se das 4 bolhas que falamos no começo do texto? Pois então, pegaremos o melhor de cada uma delas para construir a nossa. Um lugar de proteção para a mente. Nosso REFÚGIO MENTAL. Vamos lá. É tipo receitinha de bolo mesmo.
Daquela primeira bolha, a metafórica, aproveita-se a bolha em si, atual. Ela é o ponto de partida. A consciência de que bolhas existem. Porque ninguém nega que tem-está numa. A minha, por exemplo, tem a ver com o quê? Cristianismo. Família. Ciclismo. Livros. Motocicletas. Há mais coisas; pincei só uns itens. Onde quero chegar, é que as coisas que nos interessam compõem nossa bolha atual. Ela não será desprezada. Somos quem somos, e chagamos onde chegamos, por causa dela ou apesar dela. Talvez tenhamos chegado de forma intencional. Mas é bem possível que vários itens atuais tenham sido incluídos sem nosso OK.
A chave inicial, então, é sair do automático, olhar atentamente para tudo que hoje faz parte da sua vida, e começar a colocar OK ou NÃO Ok. Um diagnóstico, preparação para a faxina. Provavelmente, algo que você nunca fez. Da primeira bolha, portanto, você vai utilizar toda a sua bagagem atual, seja ela qual for, boa ou ruim, para ter o primeiro ingrediente da receita: CONSCIÊNCIA. Morpheus andou falando contigo. Você suspeitava. Agora as pílulas azul e vermelha estão à sua frente. Você se deu conta de que o lance é real. Matrix.
Da bolha que todos conhecemos (a materna), sem nunca tê-la visto, mas que teve um papel literalmente vital para todos nós, vamos extrair o segundo ingrediente: A NECESSIDADE DE SAIR. Tomar a pílula certa. Nunca me lembro se Neo tomou a vermelha ou a azul (depois eu vejo no Tio Google). Enfim, detalhes. O fato é que ele decidiu sair. Embora aquela bolha inicial do filme, assim como a nossa inicial, da vida, são aparentemente boas, a vida plena não cabe nelas. Ao sairmos, viveremos e poderemos crescer. Se ficarmos, morreremos. Assim que é, na ficção e na vida.
Uma vez fora, somos colocados – ou escolhemos nos colocar – num ambiente hostil. Sujeira. Ruídos. Germes. Intempéries. Maldades de toda ordem. Não é brinquedo, não. Como dizia um professor meu no MBA (com voz de psicopata): “O MUNDO É MAAAAAAU!!!” Sim, o mundo é mau. E somos frágeis. Não sabemos nos cuidar, de início. Diferentemente de outras espécies, que mal saem da primeira bolha, são lambidos pelas mães e entram instintivamente em marcha com a manada, o processo de crescimento do ser humano é bem demorado. Nos primeiros dias, tudo conspira contra a vida. Se sobrevivermos, passando os dias, semanas e meses iniciais, será uma vitória imensa. Hoje, com toda a tecnologia, a regra é viver. Nos tempos dos nossos avós ou bisavós, isso que escrevi fazia muito mais sentido. Pais enterravam filhos por coisas que hoje não matam mais.
O terceiro ingrediente para construção da nossa bolha, nosso refúgio mental, é a COLOCAÇÃO DE FILTROS para que as contaminações do mundo exterior não nos matem. Semelhantemente àquela imagem que trago do filme que assisti, penso ser necessário estabelecer o que pode e o que não pode agora estar dentro. Gases tóxicos ou ar puro? Palavras de vida ou mensagens de morte? Boa música ou lixo sonoro? Você já entendeu. Filtros. É necessário colocar filtros para que entre o que é bom, e fique fora o que é ruim.
Sei que o texto vai se alongando, mas este terceiro elemento, dos quatro que proponho, é muito, muito importante. Preciso aprofundar. Falarei sobre como eu faço.
Nosso mundo interior é alimentado pelos 5 sentidos. Eles se constituem em canais de ligação entre o externo e o interno. Dois deles tem maior relevância: VISÃO e AUDIÇÃO. Os três restantes (tato, olfato e paladar), embora existentes e importantes, acabam tendo um papel secundário no dia a dia. Afinal, vemos e ouvimos imensamente mais coisas do que tocamos, cheiramos ou degustamos. E falando então em alimentação da nossa mente, o pouco que tocamos, cheiremos ou degustamos fica ainda menor. Aquilo que vemos e ouvimos é o arroz com feijão, carne de panela, salada e ovo (zóião) da nossa mente. A sustança entra por estes dois canais principais.
Daí que eu cuido muito deles. Eu já tomei a pílula certa (azul ou vermelha?), saí da Matrix. Eu não permito mais que a programação da TV, encharcada das narrativas que alguém quer que eu siga, chegue até mim. Não me coloco em frente a uma tela de forma passiva, de jeito nenhum. Falando em ouvidos, jamais que carrego uma rádio qualquer para ouvir mecanicamente. Só o que eu colocaria para dentro, em 99% das estações, seria um lixo de música, todas iguais, banais, descartáveis. Na navegação na internet o troço fica mais melindroso. Embora eu tenha a impressão de que estou no controle, a coisa é feita para que eu veja o que “eles” – o que quer que “eles” signifique – querem que eu veja. Vez por outra caio na cilada. Lembro-me de algo que preciso pesquisar, então puxo o celular e lá estão 3 ou 4 ou 10 notificações de Apps diferentes. Acabo deixando de olhar o que eu precisava, para perder preciosos minutos com bobeiras. Ainda acontece, mas cada vez menos. Desabilitei as notificações da maioria dos Apps. Cedo ou tarde deixarei Off para todos, de modo que eu acesse apenas voluntariamente o que eu decidir ver, e não reagir como um cão treinado aos comandos condicionantes. Pavlov total no rolê.
Os exemplos seriam muitos, mas você já entendeu. Criar os filtros para sua bolha, seu refúgio mental, significa tomar as rédeas dos canais de entrada de tudo que te alimenta. Assim como você tem o poder de decisão sobre o que estará no seu prato – caso tenha recursos e possa fazer este tipo de escolha, algo que infelizmente ainda é luxo para tantos – e alimentarão o seu corpo, trazendo (ou não) saúde, da mesmíssima forma está no seu poder decidir o que colocará no prato que comerá com seus olhos e ouvidos, trazendo saúde ou doença para seu mundo interior. Não adianta sair da Matrix, ter uma impressão inicial de liberdade, mas no mundo real continuar comendo porcaria.
Por fim, da quarta bolha mencionada no início deste escrito, quero aproveitar a beleza, a leveza, a elasticidade, a mobilidade e a transparência. RESSIGNIFICAR, eis o quarto ingrediente. Seu lugar seguro, seu refúgio mental, não precisa ser um bunker, uma toca ou caverna. Isso te isolaria. Lugar fechado, inacessível, sombrio até. Prefiro olhar para meu refúgio mental como uma bolha de sabão. O que tem ali dentro, eu escolhi deixar entrar. O que tem fora, fica fora. Mas quero um lugar de proteção não preso ao solo – e menos ainda no subsolo – , mas um que me permita passear por diferentes lugares, voar, um que seja bonito de se olhar, tanto para quem está dentro (eu e meu mundo), como para quem está do lado de fora (pode ser que entre). Eu quero ver o mundo por todos os ângulo da parte interna de uma bolha de sabão. Visão 4D. E assim ser visto também. Não fui trazido à existência para ficar sob o velador.
Mobilidade e elasticidade para ter mais. Em meu refúgio mental não cabem apenas Cristianismo, Família, Ciclismo, Livros e Motocicletas. De forma alguma. Estes elementos o compõem, e certamente continuarão até o final da minha vida, mas há espaço para mais. Lembra-se? Uma bolha de 7,36 metros! Uma super bolha com 181 pessoas dentro. Ela terá o tamanho que eu quiser, com as coisas que eu permitir entrar. Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convém. Uma bolha pode ser rica, muito rica de conteúdo e significado. RESSIGNIFICAR.
Eu vivo numa bolha. Todos vivemos. Mas eu vivo numa que eu fiz (ou refiz), e que vai se fazendo e refazendo num continuum, do meu jeito, com os meus critérios. Eu escolho, voluntária e conscientemente, o que fica de cada lado dela. FREE WILL. Ele é boa, segura, e muito bem filtrada. Ela é leve, móvel e transparente, como essa da imagem que escolhi para o escrito. E ela tem uma outra característica muito preciosa, verificada quando do encontro de uma ou mais bolhas de sabão: ao se tocarem, não estouram, nem se repelem. Pelo contrário. Ou se conectam para formar uma maior; ou se conformam num aglomerado de bolhinhas, cada qual com seu refúgio interior, mas unidas como num só corpo. Instigante tema para outro escrito...
Sensacional!
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