Daqui mais ou menos 24 horas chega o Dia dos Namorados. E a gente faz o quê? Joga água no chope dos outros, uai! Claro! Porque não ficarei eu chorando num canto, em posição fetal, a lamentar sozinho minha solteirice no glorioso e meloso 12 de junho, enquanto todo mundo tem um cobertor de orelha pra chamar de seu. Nem a pau! Vou melar o dos outros. Eu que lute. Eu que venha aqui com meu escrito de hoje dar uma atrapalhadinha no 12 de junho de quem tem.
Brincadeiras à parte – porque o assunto é sério – vamos falar um pouco sobre amor, romance, conquista, e coisas afins.
Na véspera, mas principalmente no dia 12/06, muita coisa acontece. Preparativos para um jantar especial. A escolha de um presente. A elaboração de um roteiro de fala para aquele pedido que ela tanto aguarda (ou que você acha que ela aguarda, só que não!). A reserva de uma suíte de cinema. A escolha do lingerie perfeito, aquele que valorizará o que te destaca, e esconderá o que você não quer dar foco. (Parêntesis: eu sempre fico de cara como esses lingeries colocam peitos em quem não tem; o negócio é cabuloso). Ou então uma pesquisa rápida no Tio Google para descobrir o vinho certo, com ótimo custo-benefício, e no jantar especial “escolhê-lo” com ares de sommelier, sendo que nem de vinho você gosta. E por aí vaí. A galera se esforça, dá o seu melhor. Afinal, um dos segredos no GAME é impressionar. Extrair o sorriso rasgado, as mãos espalmadas no rosto, o queixo caído e as sobrancelhas espichadas para cima. “Uooow, consegui! Tá tudo dominado. Agora vai! Deu bom".
Anos se passam, uma história acontece. Para num dia triste, ao final de longo e desgastante processo, você finalmente verbalizar a frase engasgada, aquela que relutou o mais que pode fazer-se ouvir. Só que não dava mais. Tudo tem limite:
“SE EU SOUBESSE QUE VOCÊ ERA ASSIM, JAMAIS TERIA ME CASADO COM VOCÊ”.
Lágrimas. Dor. Olhares perdidos no infinito. E agora?
Anos se passaram. Aquela pessoa incrível, daquele 12 de junho de cinema, poderia agora, de alguma forma, ser esta mesma que se encontra na sua frente?
“MEU DEUS! O QUE EU FIZ COM A MINHA VIDA? ONDE EU FUI AMARRAR MEU JEGUE?”
(Falei que ia jogar água no chope...)
Sabe, eu acho que se pode mentir de muitas formas para uma pessoa. Em qualquer contexto, é ruim. Quando a mentira é dirigida a alguém distante de você, já é horrível. Mas mentir para a pessoa que abriu e entregou seu coração a você, temos aí o ápice da maldade. Principalmente, se a mentira é sobre quem você é. Não sobre algo que você fez e escondeu. Não sobre uma conduta negada e, por fim, descoberta. Mas a mentira essencial, a mais cruel: você ter mentido para quem te ama, sobre quem você verdadeiramente é.
No game da conquista isso acontece muito. Como eu sei? Simples: já fiz. Mas há que se diferenciar o FRAUDADOR CANALHA do FRAUDADOR BOBÃO. Penso eu que fui do tipo bobão. O piá tonto e crescido, razoavelmente bonitinho na pré-adolescência, que um dia – e me lembro perfeitamente bem de quando processei o pensamento que continha a fórmula mágica para tocar o coração de qualquer menina: “Basta eu me adaptar ao que ela quer. É só dizer o que ela gostar de ouvir. Jamais a contrariar”. Não tinha como dar errado. Eu faria o jogo “certo”, observaria atentamente, colhendo silenciosamente as informações essenciais da vítima, para entrar em cena na janela de oportunidade. As palavras certas, abordagem calculada, para causar a essencial primeira boa impressão. Chamar a atenção, extrair um sorriso, depois fazer de conta que não estava tão interessado assim. Medir a febre para ver se rolou feedback positivo, então dar novos passos. Não tinha como dar errado. E olha, muitas vezes deu bom mesmo. Aliás, na maioria das vezes.
“Opa, pera lá Seu Fernando! Então você foi sim o fraudador canalha!”
Não, não. Eu fui um fraudador bobão mesmo. Porque eu realmente havia me interessado pela garota. Só que, travado de tímido como sempre fui, eu não tinha os paranauê da aproximação e conquista que os meus amigos tinham. Aquela verve, a abordagem direta, a puxada ousada para um primeiro e inesperado beijo na guria. Não, eu não tinha as manhas. Eu tinha que ir do meu jeito e no meu tempo, o que significava adaptar-me ao contexto da moça e fazer o jogo. Então rolava o processo, e cedo ou tarde estávamos juntos. Em alguma medida, havia sim fraude do lado de cá da relação. Os bilhetinhos, as flores iniciais, as aberturas de porta dos carros, e muitos desses floreios, que iam pouco a pouco sendo abandonados, para finalmente aparecer o FER REAL.
O Fer real era bobão, não um canalha. A diferença desses dois tipos é que o canalha é irremediável e diabolicamente fake, com as piores intenções desde a raiz. O cara quer zoar a mina, brincar mesmo, fazer o personagem, usar, abusar e jogar fora. O bobão, não. O fraudador bobão é um tonto perdido, sem a firmeza necessária na personalidade para ser quem ele é, autêntico, real, e convicto de que haverá sim alguém que o amará pelo seu jeito, com o que ele tem. Inicialmente será assim. O que vem depois, passa a ser uma construção dos dois. As coisas irão mudar? Claro. Ele vai mudar. Ela também. Mas o começo foi baseado numa pessoa real, não numa fraude.
Se fui canalha nalguma história, somente uma (ou mais) das moças que namorei poderá dizer. Eu acredito que não fui, e não teria dificuldade de dizer ter sido, como quem já leu outros de meus escritos deve ter percebido. Não tenho dificuldade de me expor, lidar com os aspectos ruins da minha história. Há até quem diga que eu não deveria me expor tanto. Mas eu o faço, mostro mesmo tudo que entendo possa ser útil para o meu próprio aprimoramento, como também para tantos e quantos vierem a ler estes escritos. Acho que fui só bobão. Hoje, nem isso. Não me sinto uma fraude, em aspecto algum da minha vida. Dizê-lo é ousado, eu sei. Mas digo: o Fer fraudador bobão não existe mais.
Mas paga-se um alto preço na decisão pela AUTENTICIDADE. Por não entrar no “game”, por não fazer mais o jogo do engano, você se coloca como um cara comum, normal, meio sem graça (é o meu caso). Você se coloca como uma garota comum. Ou como alguém incrível, se você for incrível. Ou uma pessoa engraçada. Inteligente. Ensinadora. Mimada. Dependente. Miserável. Horrorosa. Isso mesmo. Se você partir para caminhos de autenticidade, a verdade sobre você será vista, seja ela qual for. Pode ser bonita ou feia. Mas beleza real. Ou feiura real. Você não fraudará ninguém.
A boa notícia é que sim, haverá sempre alguém para gostar de você. Se a verdade sobre você for uma pessoa bela, creio que as chances de ser gostado serão maiores. Se for feia, chances menores. Mas, ainda assim, haverá alguém. Sempre tem, mesmo para uma pessoa que não seja super-super-super. Tem muita gente malacabada por aí, autêntica no seu jeito estrupício de ser, que é loucamente amada por outro ou outra malacabada, e os dois se entendem ao seu modo. Porque não há fórmulas herméticas no amor. Não são apenas as vidas “comerciais de margarina” que dão certo. Mesmo uma relação, aos nossos olhos, esquisitona, tem o potencial de acomodar-se e encontrar seus meios. Eu observo muito isso.
Onde quero chegar com este palavrório todo? Simples. Bem simples.
Não seja fake neste dia 12/06/2021, nem em nenhum outro dia da sua vida relacional. Não seja um fraudador bobão, ou uma fraudadora bobona. Menos ainda, jamais, em hipótese alguma, se preste ao papel de um fraudador ou uma fraudadora canalha. Não gere no outro ser, à sua frente, a pessoa que está interessada em você, uma imagem irreal e que não se sustentará. Esta pessoa está abrindo a área mais sensível de seu ser: O CORAÇÃO. Ela não merece fazê-lo para algo que não existe, um personagem, uma mentira que respira. Esta é a mentira mais cruel. Mentir para o coração de alguém.
A pessoa precisa saber quem você é de verdade, para que ela tenha a oportunidade de tomar uma decisão correta sobre o que fazer com aquele tunts-tunts que rolou no seu peito. Ela tem o direito de fazer uma escolha sobre bases reais.
Se você não é romântico e meloso, não pareça ser. Há pessoas que amarão justamente o fato de não ser. Existe amor entre as lesmas melosas e gosmentas, e há também entre os ouriços com seus espinhos. Entre os macacos-prego com seus gritos estridentes, e entre os pandas que nem barulho fazem.
Se as roupas caras, o carro emprestado do amigo rico, o jantar topíssimo que você usou no game hoje, malemá irão acontecer de ano em ano – quem sabe, nem isso – não comece assim. Seja real. Se tá na pendura, vá ao dogão mesmo. Como diz um amigo meu “Fer, valorize a moça que hoje senta contigo no banquinho do dogão. Pode ter certeza que esta você um dia poderá levar aos melhores restaurantes. Ela não estará lá por isso. Estará por você”.
Se você vai usar o sexo para conseguir o que quiser de seu parceiro, por favor, deixe isso bem claro desde logo. Ele/ela precisa saber que você é assim. Pode ser que aceite algo assim. Pode ser que não. Cada um come o que quer e digere como pode. Mas a pessoa tem o direito de saber a verdade de onde está entrando. Como eu disse, pode ser feia ou bonita a sua verdade, mas é ela que você precisa mostrar. O outro tem o direito de saber que você gosta de manipular.
Se você é estúpido, grosseiro, se vai bater na mesa (ou na cara) e falar mais alto; se a última decisão será sempre a sua, faça isso ser conhecido desde logo. A moça tem o direito de saber que você é assim, e não o pseudo-gentleman de fala macia e sedutora, que depois de tê-la fisgado irá mostrar o ogro que sempre esteve aí dentro. Fazer diferente, é a mentira mais cruel. Ela não merece ser enganada. Porque se você mostrar este ser truculento, com todas as garras e brutezas, e ainda assim ela te quiser, beleza! A escolha foi dela, mas uma escolha com base na realidade. Aí ela que administre o bicho com quem se casou.
Se deseja um estilo de vida absolutamente diferente, abra isso para a pessoa que abriu o coração para você. Conversem sobre. Estilos de vida se ajustam. Sonhos se acomodam. Não será tudo do seu jeito, nem tudo do jeito dela. Só sei que ambos têm o direito de conhecer o que o outro quer, e o dever de mostrar o seu lado do sonho. Juntos, talvez consigam responder se esses dois caminhos podem tornar-se um. Um novo. Diferente daqueles caminhos originais, para transmutar-se num belo, novo e maluco caminho comum aos dois na fase conjugal.
Autenticidade custa! Ser verdadeiro custa! Ser você mesmo cobra um alto preço. Será mais difícil ser notado, chamar a atenção, brilhar na multidão. Mas há, eu sei que há, sempre haverá alguém que vai gostar de você exatamente do jeito que você é, e abrir o coração para aquela pessoa esquisitona que você acha que é, para a partir dali começarem algo que mudará os dois. Um homem novo. Uma mulher nova. Um terceiro jeito de ser. Belo. Novo. Maluco. Diferente dos jeitos originais. Um jeito melhor.
Feliz dia dos Namorados!
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