terça-feira, 8 de junho de 2021

029 O DEUS QUE SORRI

A cena é muito, muito tensa!

AVISO DE SPOILER: se você não leu ou não assistiu “O Perfume”, de Patrick Suskind, pare por aqui. Se prosseguir, é por sua conta.

Jean-Baptiste Grenouille é retirado às pressas da fétida jaula onde se encontra. Sujo, esquelético, acorrentado em pés e mãos. Mais que depressa é levado até uma janela do edifício, que tem no pátio à sua frente uma multidão enfurecida, prestes a invadir o local. Completamente tomada pelo ódio. As autoridades entendem que se ele não fosse ali colocado imediatamente, para que o povo ao menos o visse, entrariam à força para tomá-lo e matá-lo. A cena é aterradora, e muito bem filmada. Consegue passar o contexto de ódio e urgência.

Eu tive contato com o filme antes do livro, e confesso que, para mim, foi um dos raros casos em que gostei mais das imagens na tela do que das imagens mentais, produzidas pela leitura. Se bem que estas ficaram invariavelmente comprometidas e influenciadas pelas cenas que eu havia assistido previamente, então jamais saberei quais cenas eu mesmo teria imaginado, se tivesse lido primeiro. Por isso é sempre melhor encarar o livro antes do filme, se possível.

Como eu não tivesse nenhuma informação daquela história, tudo me era surpresa. A cena inicial, tão forte e violenta, me gerava questionamentos sobre o que um carinha - magrelo e aparentemente inofensivo - teria feito de tão terrível, para tornar-se alvo de milhares de pessoas enfurecidas. Captou minha atenção totalmente. Bem, como o subtítulo do livro/filme é “História de um Assassino”, estava parcialmente matada a dúvida. Mas a curiosidade permanecia, sobre quem ou quantas pessoas ele teria matado, e de que forma tão horrenda, para encontrar-se prestes a ser trucidado por uma cidade inteira. As pessoas não queriam sequer aguardar um julgamento, por mais que fosse claro que ele seria condenado à morte. Não dava para esperar. Era urgentíssimo. Imediato!


Grenouille possuía um dom. Um dom único. Dom que o levou a uma louca ambição: criar o perfume mais perfeito do mundo.

Ele mesmo não tinha cheiro. O rapaz sem odor conseguia captar e identificar com suas narinas qualquer cheiro existente. Após uma série de acontecimentos iniciais, ele acaba sob os cuidados de um mestre perfumista, que percebe este dom e o inicia na arte. Jean-Baptiste, agora no papel de aprendiz, o ajuda a descobrir a fórmula de Amor & Psiquê, o perfume-sensação daqueles dias (Paris, século XVIII), algo em que o mestre estava batalhando há algum tempo. Ele queria copiá-lo, mas não identificava um último óleo essencial na fórmula.

Com uma facilidade incrível, Grenouille o faz, para laconicamente comentar que aquele nem era um perfume bom. O mestre, indignado, dá-lhe uma bronca e diz que ele nada sabe sobre perfumes bons ou ruins. Ousadamente, o aprendiz diz que saberia deixar aquele perfume melhor, então toma a cópia de Amor e Psiquê, mistura mais algumas essências, sem medir, sem pesar, instintiva e atabalhoadamente. Estende o frasco, numa atitude corporal de necessidade de aprovação. Diz que agora sim havia ali um perfume bom. O mestre, furioso, sequer se dá ao trabalho de pegar, certo de que o aprendiz maluco havia estragado a tão sonhada cópia. Ele expulsa Grenouille de sua presença. Então sozinho, curioso – e a cena no filme é incrível, na expressão facial de Dustin Hoffman – estala os olhos, jogando as sobrancelhas quase ao teto, quando sente a fragrância do "Amor & Psiquê 2.0". Era espetacular!

O mestre perfumista tinha um tesouro em suas mãos... e soube explorá-lo. Jean-Baptiste ia criando mais e mais perfumes incríveis – que, claro, davam fama e dinheiro ao mestre – pelo puro prazer de ter acesso a todos os cheiros possíveis. O jovem não estava interessado em riquezas, mas apenas em conhecer, misturar e criar fragrâncias novas. Pouco a pouco, ele começa a compreender os caminhos para a criação dos bons perfumes: ter os melhores óleos essenciais.

Mas Grenouille percebe que os óleos à sua disposição não são bons o bastante. Ele precisa de algo mais. Começa a tentar extrair as essências das mais diversas coisas. Plantas, objetos, e até mesmo o gato de estimação do mestre, que acaba afogado e cozido num caldeirão de perfumista. Claro que a maioria das tentativas não dá em nada útil. A loucura começava a dominá-lo. Onde estariam as essências perfeitas? Quais suas fontes?

Certa noite, enquanto andava pelas ruas de Paris, ele percebe um cheiro novo. Desvia-se completamente da rota em que estava, e das tarefas que o mestre lhe havia designado, para seguir farejando, farejando, até deparar-se com uma moça. Ela era cega. Ela era virgem. Ela era pura. Seu cheiro era diferente dos cheiros das outras pessoas. Como Grenouille não tinha cheiro, e era muito habilidoso em mover-se sorrateiramente, sem fazer-se notar por qualquer barulho, conseguiu chegar muito perto da moça cega. Ela, mesmo com aguçada audição, não o notou. Grenouille a ficou cheirando, deliciando-se. Era incrível. Então lhe ocorre uma ideia: extrair a essência daquele cheiro único, de uma virgem pura, em forma de óleo, para utilizar no seu perfume perfeito. A loucura dava os primeiros passos.


O aprendiz estão começa a indagar sobre os caminhos para chegar às essências e, enfim, ao perfume mais perfeito do mundo. Conta-lhe o mestre uma história (com ares de lenda), segundo a qual, nas antigas e secretas artes da perfumaria egípcia, tal perfeição seria alcançada com 13 óleos essenciais. Os mais raros. Únicos. Nas proporções exatas. O resultado?  Algo divino. Um cheiro tal, que quem o portasse seria amado com um deus. A loucura completa agora tinha um plano.

Terminam aqui os spoilers. Veja o filme ou leia o livro. São muito bons. “O Perfume – História de um Assassino”, foi amplamente premiado quando de seu lançamento, e é considerado pela crítica, possivelmente, o melhor romance alemão de sua época.

Utilizei umas 1000 palavras até aqui, para no texto encontrarmos menção alguma ao riso, e uma única menção a um deus, mas não ao verdadeiro Deus. O Fer e suas conexões. Onde será que este texto vai dar...

Ah, antes de falar do que realmente importa, vai uma curiosidade sobre mim: nunca usei perfume. As poucas tentativas não passaram de 2 ou 3 vezes, acabando sempre os frascos sendo dados de presente para alguém. 


Muito antes do fictício Jean-Baptiste Grenouille, aproximadamente 15 séculos antes de Cristo, um óleo perfeito e um perfume perfeito foram elaborados. Eis suas receitas:

Falou mais o Senhor a Moisés, dizendo: Tu, pois, toma para ti das principais especiarias, da mais pura mirra quinhentos siclos, e de canela aromática a metade, a saber, duzentos e cinqüenta siclos, e de cálamo aromático duzentos e cinqüenta siclos, e de cássia quinhentos siclos, segundo o siclo do santuário, e de azeite de oliveiras um him. E disto farás o azeite da santa unção, o perfume composto segundo a obra do perfumista: este será o azeite da santa unção. E com ele ungirás a tenda da congregação, e a arca do testemunho, e a mesa com todos os seus utensílios, e o candelabro com os seus utensílios, e o altar do incenso. E o altar do holocausto com todos os seus utensílios, e a pia com a sua base. Assim santificarás estas coisas, para que sejam santíssimas; tudo o que tocar nelas será santo. Também ungirás a Arão e seus filhos, e os santificarás para me administrarem o sacerdócio. E falarás aos filhos de Israel, dizendo: Este me será o azeite da santa unção nas vossas gerações. Não se ungirá com ele a carne do homem, nem fareis outro de semelhante composição; santo é, e será santo para vós. O homem que compuser um perfume como este, ou dele puser sobre um estranho, será extirpado do seu povo. Disse mais o Senhor a Moisés: Toma especiarias aromáticas, estoraque, e onicha, e gálbano; estas especiarias aromáticas e o incenso puro, em igual proporção; e disto farás incenso, um perfume segundo a arte do perfumista, temperado, puro e santo; e uma parte dele moerás, e porás diante do testemunho, na tenda da congregação, onde eu virei a ti; coisa santíssima vos será. Porém o incenso que fareis conforme essa composição, não o fareis para vós mesmos; santo será para o Senhor. O homem que fizer tal como este para cheirar, será extirpado do seu povo. (Êxodo 30:22-38)

Como é interessante olhar para um texto das Sagradas Escrituras com calma. Ficar nele. Meditar. Sentir a fragrância dos detalhes.

Essas duas receitas foram ditadas pelo próprio Deus a Moisés. Um Deus que aprecia bons aromas. Que interessante. Um Deus que sabe fazer óleos essenciais e perfumes. Uai, e haveria algo que Ele não soubesse fazer?

É dito no texto que aqueles objetos e pessoas específicas, quando ungidos com o óleo, tornavam-se santos. Era, portanto, um óleo santo e santificador. Embora feito com elementos do mundo físico, tratava-se de uma receita dos céus. Um perfume sobrenatural, com o poder – e eu realmente não acho que foi dito figuradamente – de tornar santo tudo sobre o que fosse colocado. Eram as liturgias do Santuário.


Santuário. Na mesma Bíblia é dito sobre nós, quando feitos filhos de Deus em Cristo, que nos tornamos templo do Espírito Santo. Santuário para Deus (1 Coríntios 6:19). Mas Ele não para por aí. Vejamos as semelhanças. Uma vez levantado aquele santuário antigo no século XV antes de Cristo, Deus ordenou que ele fosse ungido com óleo santo, para então ser acolhido por Deus como santo. Da mesma forma, embora levantados hoje por Deus como seu santuário, Ele deseja derramar sobre nós um óleo chamado Espírito Santo, para que sejamos também acolhidos por ele como santos. Não tem como ignorar isto. Aquele lindo santuário, com aparência de santo, feito nos mínimos detalhes conforme um projeto dado pelo Santo Deus, precisou receber óleo sobre si, para somente então ser dito que ele era santo. Conosco não seria diferente.

Mas tem mais. O texto contém uma segunda receita. O tal incenso-perfume, segundo a arte do perfumista, temperado, puro e santo, feito com especiarias aromáticas, estoraque, e onicha, e gálbano, e ainda o incenso puro, em igual proporção. Este não foi feito para unção dos objetos do Santuário, tampouco para os sacerdotes. Por alguma razão, este não era para homem algum. Deus ordenou a criação de um perfume para Si. Como está lá escrito... “o incenso que fareis conforme essa composição, não o fareis para vós mesmos; santo será para o Senhor”. Homem algum deveria sequer cheirá-lo. Eu amos estes detalhes e mistérios da Palavra. Acredito que os teólogos já tenham se debruçado sobre isto e haja algumas compreensões a respeito. Como não sou teólogo, digo sinceramente que não sei. Deus mandou fazer e separar só para ele. Bora obedecer, uai. Ele mandou, a gente faz.


Começamos o texto falando de um perfume fictício, fruto de uma ideia louca do Jean-Baptiste Grenouille. Perfume perfeito, com 13 óleos essenciais extraídos de virgens puras. O ser humano e sua mente criativa... Prosseguimos falando, então, de dois óleos reais, cujas receitas foram dadas por Deus, para finalidades específicas. Um para santificar coisas e homens. Outro para seu próprio prazer, um perfume que não seria utilizado por homem algum e em coisa alguma. Ficaria apenas reservado, no seu devido lugar, porque assim Ele queria. E vamos agora caminhar para os finalmentes, falando de um outro óleo mencionado na Bíblia. O texto de Isaías 61:1-3 diz o seguinte:

O Espírito do Soberano Senhor está sobre mim porque o Senhor ungiu-me para levar boas notícias aos pobres. Enviou-me para cuidar dos que estão com o coração quebrantado, anunciar liberdade aos cativos e libertação das trevas aos prisioneiros, para proclamar o ano da bondade do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; para consolar todos os que andam tristes, e dar a todos os que choram em Sião uma bela coroa em vez de cinzas, o ÓLEO DA ALEGRIA em vez de pranto, e um manto de louvor em vez de espírito deprimido. Eles serão chamados carvalhos de justiça, plantio do Senhor, para manifestação da sua glória.

Óleo da Alegria. A essência da verdadeira e celestial alegria. Assim como existe uma paz que o mundo dá, e a Paz verdadeira; sabedoria da terra, e Sabedoria do alto; as "verdades" de cada um por aí, e A Verdade encarnada... não seria diferente nas demais coisas. O que vem do alto, é sempre melhor. Existe alegria no mundo? Claro, não se nega. Mas já imaginou como seria uma Alegria essencial?


Eu não sei como você pensa em Deus. Acho que para a maioria das pessoas faz sentido e soa natural quando alguém diz que Deus tocou, Deus falou, Deus moveu, etc... mas e se alguém disser que Deus sorriu?

Pois é, eu penso muito no Deus que sorri. Ao longo dos séculos, especialmente pela rigidez das liturgias da "igreja instituição", e muito também pelas magnificas criações visuais das artes humanas, foi sendo moldada a imagem de um Deus sério e carrancudo, o Supremo Juiz do Universo. Sim, Ele é, não se nega. Mas Ele mesmo deixa claro que esta expressão do Seu Ser se manifestará em ocasião apropriada, quando cada ser vivente que passou por este mundo estará em Sua Presença para uma conversa séria. Lá não vai ser brinquedo, não. Conforme o que cada um ouvir dEle, vai ser riso eterno para os da direita, ou choro eterno para os colocados à esquerda. É isso que a Bíblia diz. É nisto que eu creio. O tempo da severidade de Deus se manifestará.

Hoje, entretanto, este mesmo Deus que é Juiz Supremo do Universo, diz de Si mesmo, a mim e a você, ser um PAI AMOROSO (ver texto 018 SEMPRE NA CASA DO PAI). Os pais, mesmo os que não são tão bons, costumam sorrir. O meu pai (Alvino) é um bom pai. Ele sorri. Aliás, ele sorri e faz sorrir, principalmente quando imita o Nerso da Capitinga, aquele hilário personagem da Escolinha do Professor Raimundo. Meu pai brinca, faz piada, diverte-se e diverte aos outros. Às vezes paga mico, horas em que faço vista grossa, cara de paisagem, porque ele é o meu pai.

Então, por qual razão eu não poderia ver meu Pai Celestial como um Deus que sorri? Um Deus de Alegria. Fomos feitos à imagem e semelhança dEle. Portanto, se expressamos alegria com sorrisos, certamente isso reflete algo dEle, só que nEle um riso e alegria perfeitos. O riso é expressão não-verbal instantaneamente compreendida por qualquer povo, língua ou nação, como sinal de alegria. Riso. Alegria. Riso. Alegria. Riso. Alegria. É indissociável. Aí a gente vai falar de um Deus que possui Óleo de Alegria, a pura essência, sem conceber que este mesmo Deus sorria, seja alegre, brinque, seja divertido, santamente divertido? Não faz sentido não concebê-lo alegre. Eternamente alegre, numa das inesgotáveis manifestações de seu Ser.

Penso ser preciso abandonar as velhas e rígidas concepções. Imagens carrancudas de um Deus julgador (apenas julgador), para abraçar forte e urgentemente a presente e alegre e alegradora imagem do Deus Pai. O Deus que sorri. O Deus que, por sorrir, faz sorrir. Aquele Pai Amoroso, do texto 018, não recebeu o filho em seus braços como juiz, embora pudesse julgar, condenar e punir. Não. Ele preferiu manifestar o grande amor por seu filho que estava perdido e foi achado. Certamente o fez sorrindo. Chorando e sorrindo ao mesmo tempo, o que para mim é uma das misturas mais incríveis de emoções.


Ele tem Óleo de Alegria. E certamente, assim como o óleo do Santuário tinha o poder de santificar tudo que tocasse, o Óleo de Alegria tem o mesmo poder de alegrar tudo que também tocar. Mas onde ele está? Como ter acesso?

Ele está na fonte: o próprio Deus, derramado sobre nós como óleo.

Não podemos comprá-lo. Nem merecê-lo. Não há preço ou mérito que nos dê acesso. Podemos apenas humilde, sincera e imerecedoramente pedi-lo. O Pai não negará:

Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á. Porque, aquele que pede, recebe; e, o que busca, encontra; e, ao que bate, abrir-se-lhe-á. E qual dentre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra? E, pedindo-lhe peixe, lhe dará uma serpente? Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem? (Mateus 7:7-11)

Tristeza inunda o seu ser? Desalento? Prostração? O riso foi embora? Saiba que se você é filho, o Pai Amoroso, dentre tantas outras coisas que diz de si mesmo, é também o Perfumista dos perfumistas, a fonte da verdadeira Alegria. Ele tem perfume perfeito, Óleo de Alegria para os que são dEle. Está à sua disposição, a uma pequenina oração de distância. Fale com o Pai. Ele vai derramar.

Um comentário:

  1. Que lindo! Eu creio num Deus que sorri! Eu creio no Deus que enche meu coração de alegria, mesmo quando as circunstâncias tentam dizer ao contrário! Eu creio no Deus de detalhes! Ah, eu acho que Jesus deve ter um cheiro incrível! Sempre pensei nisto: como seria o cheiro de Jesus!

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