quinta-feira, 3 de junho de 2021

027 APENAS UM BEIJO

Havia uma moça da igreja que morava na mesma rua que eu, lado oposto, meia quadra de distância, umas 4 casas para baixo. Ela era um pouco mais velha, jeitão de mulher, deveria ter seus 16 para 17 anos. O Fer com 13, tamanhão de 17. Assim como eu tinha uma paixão platônica por outra moça, essa tinha por mim. Alguém deveria ter por ela, naquela cadeia sem fim de A, que gosta de B, que gosta de C... algo que todos provamos alguma vez. Certa noite – e seria possível identificar o dia exato, pois no rádio tocavam-se apenas músicas de John Lennon, por ocasião dos 10 anos de sua morte – houve um churrasco em sua casa. Ela me olhava muito, mas não se aproximava. Em todo o tempo, eu prestando atenção na menina-mulher que eu era fã, que não tirava os olhos de outro carinha, que sonhava acordado com uma moça da faculdade (não presente ali). E a moça-vizinha vidrada em mim. Como quase sempre acontece, todo mundo sozinho e querendo alguém que quer outro alguém.

A certa altura do churrasco, faltou algo. Como eu morava bem perto, dispus-me a buscar. Ovos. A meio caminho de casa, notei a moça vindo comigo. Pediu-me para esperar, iria me ajudar. Bem, não seria necessária ajuda para buscar alguns ovos, mas fomos juntos. Nossa casa de madeira tinha 3 portas de acesso. Duas na frente (sala e escritório) e a dos fundos, pela área de serviço, que dava direto na cozinha. Era a que mais utilizávamos. Mal chegando na área dos fundos - era noite, provavelmente uma bela lua cheia para dar o quadro perfeito - ela me abraçou. Num movimento rápido, segurou um dos meus braços e colocou-se frente a frente, aproximando-se para um beijo. Não disse nada, apenas agiu. Como deve ser.

Ainda envolvido pelo abraço, recuei. Não nos beijamos. Ela tentou mais uma vez. Novamente não nos beijamos.

Fosse aquele o meu primeiro, acho que eu entenderia melhor os dois recuos. Mas pouco tempo antes eu fora devidamente e muito bem iniciado nessa arte por uma menina da minha igreja, noutra cidade que moramos. Saíamos no meio do culto para nos beijar. Isso começou a ocorrer diversas vezes, até que alguém percebeu a movimentação atípica e fomos identificados. O filho do pastor e a filha do presbítero. Duas quase crianças, chegando à pré-adolescência, dando uns beijos na hora do culto. Que lindo rs.

Voltemos à história principal.

Creio que aqueles não-beijos não se deveram ao fato de eu estar interessado em outra menina, e por nenhuma característica da moça que estava interessada em mim. Ela era muito bonita, por sinal. Alta, morena, fisicamente atraente. Tinha algumas marcas no rosto – até por ser um pouco mais velha, estar na puberdade –, assim como eu viria a ter, pela casa dos 17 (acne). Meus dois recuos tiveram mais ver com a timidez que sempre me acompanhou (tema abordado no escrito 02 LET´S DANCE). De início, claro, muito mais intensa. Hoje, bem menos. Mas não completamente superada.

Sobre a timidez, saltando 2 anos no tempo, finalmente rolou o segundo beijo. Nessa situação, o travamento foi tão intenso, que quase ficamos de novo no “quase”. Havia naquela época as famosas “Paqueras na Avenida”. Povo na rua, uma caixa de som, uma pessoa lendo para todos ouvirem os recadinhos que alguém mandava para alguém, fazendo links para que paqueras e namorinhos começassem. Recebi dois recados. O primeiro não foi assinado, mas pelo tanto que uma determinada moça me olhava, não havia dúvidas. Nada fiz. Veio o segundo recado, agora explicitamente assinado por ela, que estava do outro lado da rua, sem tirar os olhos de mim. O burburinho foi geral, todo mundo gritava e assobiava “vai lá”, “conversa com a menina”. A barriga gelava (risos). Fui, senão não teria sossego. Os caras que estavam comigo iriam tirar sarro de mim pelo resto das férias. Mas fui não apenas por isso. Eu também estava interessado nela.

Caminhamos juntos até o banco da praça. Sentamo-nos. Rolou bastante conversa, muito mais que o necessário entre um cara e uma menina que estava doida para ficar com ele. Mas por mais que tudo estive rigorosamente no lugar, favorável, eu era muito travado. Passavam mil cenas na mente de eu me aproximando para beijá-la e, de repente, sendo recusado; a menina rindo de mim e depois contando para todo mundo que fiquei como bôbo, etc. Não apenas com essa, mas em praticamente todas as vezes que vim a beijar depois, a aproximação para o primeiro beijo foram um desafio. Poucas vezes na vida eu fiz como a moça que buscou me beijar no dia dos 10 anos da morte do John Lennon, sem nada dizer, apenas agir. Enfim, conversei por longas 2 horas com essa moça do segundo beijo (na praça), que foi se cansando, esperando, olhando para minha boca insistentemente, até que perguntou/afirmou:

- Você não quer ficar comigo, né?!

- Claaaro que quero!

- Então por que não me beijou ainda?

Por fim, quem se inclinou para a frente foi ela. Fui beijado na primeira vez, pela filha do presbítero. Quase beijado por minha vizinha, uns anos depois. E novamente beijado na pracinha, toda enfeitada para o Natal.

Somente 1 ano depois, novamente nas imediações daquela mesma praça, posso dizer que EU me movi para beijar a bendita da quarta moça desta história. Foi relativamente mais fácil.

Olhando para trás, penso que eu deveria ter beijado naquela noite dos 10 anos da morte de John Lennon. “Imagine”, certamente a música mais linda de sua composição – e possivelmente uma das mais belas que há entre todas as existentes no mundo – teria sido a trilha sonora perfeita para a noite de uns bons beijos entre um rapaz e uma moça que não queriam se machucar. Tempos de descoberta. Juventude. Naturalidade da vida.

Ela queria apenas um beijo.

Teríamos ficado alguns instantes juntos. Minutos. As pessoas estavam esperando pelos ovos. Sim, aquele beijo deveria ter acontecido. Tenho certeza que seria uma lembrança doce. Sempre digo que 90% dos dias vividos são rigorosamente comuns, sem aventuras ou fatos marcantes; 10% reservam-se para coisas importantes; e 0,00001% são os tops, aqueles dias em que acontecem coisas que mudam toda nossa história. Fica claro onde se encaixaria aquele beijo (ver o texto 013 AS OPINIÕES DOS OUTROS, para detalhes sobre essa classificação dos dias mais especiais).

Não que eu pense nisso com tristeza – e possivelmente ela nem se lembre (ou sim) –, mas vejo hoje, olhando para trás com perspectivas bem mais amplas do que as que eu tinha naquela época, quantas coisas absolutamente normais deixei de viver. As realmente nocivas, dou graças a Deus por não tê-las vivido, mas outras teriam sido positivas, como essa pequena história que poderia ter terminado melhor.

Ao ser recusada, perguntou-me a razão:

- Eu sou feia? Você não gosta de mim? Está com medo?

Tenho certeza que não respondi nada que a magoasse, mas realmente não consigo me lembrar exatamente o que disse, ou se ensaiei dizer algo e não deu tempo (creio que foi isso). Ela ainda estava abraçada a mim, olhando bem de perto, dizendo o quanto eu era lindo e o quanto gostava de mim, quando ouvimos os passos de alguém chegando. Ela se afastou e saiu apressadamente, sem falar nada. Alguém a notou indo atrás de mim, e imaginou o que significava aquela movimentação. Minutos depois, voltando para o churrasco com os ovos que fui buscar, não me lembro de tê-la visto. Como ficou, não sei. Parou de me olhar a partir de então. Creio ter sido a primeira menina por mim rejeitada, e que realmente ficou sentida.

“Imagine all the people, living for today”

Imagine todas as pessoas, vivendo o presente.

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