Acordei com fome.
Não, hoje não tem pegadinha, daquelas que eventualmente invento aqui nos escritos, colocando uma imagem que passa uma ideia, para no meio da leitura você descobrir que o tema era outro. Metaforicamente falando, eu poderia abordar muitas fomes. Só que hoje é sobre comida mesmo. Fome de comida. A pior fome.
O que eu sei sobre isto? Eu passo fome? Já passei fome?
Antes de responder, abro um pequeno parêntesis para abordar muito superficialmente – pois o farei adequada e profundamente em outro momento – a questão do famigerado “lugar de fala”. Um negócio que inventaram de uns tempos para cá, basicamente consistindo que determinadas pessoas, por não pertencerem a determinados grupos, ou não se encaixarem em determinadas características, não podem falar, ou (se falam) não tem valor suas falas sobre determinado assunto. Obviamente, discordo. Penso que qualquer pessoa possa falar sobre qualquer assunto, e sua opinião pode sim ser válida, ainda que ela fale sobre algo que não esteja 100% enquadrado a ela. Tem a ver com o conteúdo, não com emissor. Uma pessoa com o pretenso “lugar de fala” pode falar asneira. Uma pessoa sem lugar de fala pode falar o certo. O que passa disso, para mim, é ginástica mental e contorcionismo. Mas... como disse, aprofundaremos noutro dia.
Então vamos lá. Falemos de fome.
Eu senti fome, fome de verdade, uma única vez na vida. Quase-fome, talvez meia dúzia de vezes. Aquilo que a gente fala que é fome, mas não é, eu sinto todos os dias. E vontade de comer, com zero vínculo com qualquer dessas realidades anteriores, toda hora. Eu como toda hora. Uma colega de trabalho, quando estávamos no presencial, certa vez comentou que todas as vezes que entrava no hall onde eu ficava, ela me notava mastigando algo. Magro de ruim, total.
A resposta mais irrefletida, minha e de qualquer pessoa, seria “sim, claro que eu já passei fome”. E não, não estou dizendo que está errado. Não tenho como mensurar o subjetivo. É totalmente pessoal. Não existe um medidor, um exame, a pele não mudar de cor conforme a intensidade do buraco no estômago. A fome é algo praticamente invisível. Salvo situações extremas, quando um processo mais alongado e endêmico se estabeleceu, com sinais físicos evidentes, a verdade é que num primeiro momento não temos como saber se qualquer das centenas de pessoas por quem passamos na rua durante o dia, estão com fome ou não.
Alguns contextos sugerem que sim. Alguém pedindo dinheiro para comprar uma marmita, normalmente sim. Pode ser que não. Certa vez, atendendo a um desses pedidos, não dei dinheiro. Logo após entregar um lanche ao rapaz, e observá-lo se afastar, vi aquele alimento ser arremessado com força ao chão. “Não quero essa merda!”. Talvez ele estivesse com fome de outras coisas. Então, os contextos podem sim sugerir, mas também nos enganar.
Fome, fome de verdade, fome meeeeeeesmo (com muitos “es”), de acordo com a opinião de uma nutricionista que minha mãe acompanha, e que acabei ouvindo enquanto as Donas Mirian e Miltes (mãe e tia) acompanhavam uma live no Instagram, é quando você comeria qualquer coisa, urgentemente, sem pensar em mais nada. Beleza, eu sei que não é uma definição científica, detalhada, descritiva. Alguém poderá discordar, mas eu a considero válida. Naquela subjetividade toda, cada um sentindo de um jeito, creio que todos concordariam ser fome um estado tal de necessidade de alimento, que você comeria o que quer que fosse, sem pestanejar, sem cara de nojinho, o mais urgentemente possível. É disso que estamos falando.
Eu senti isso uma vez na vida. Uma única vez. Ou acho que senti.
Primeiro semestre de 1995. Londrina. O salário-mínimo era de R$100,00. Eu morava longe dos pais pela primeira vez, com 17 para 18 anos de idade, recém-aprovado no vestibular para Arquitetura na UEL. Instalei-me nas proximidades do Zerão, um complexo esportivo bem perto das Avenidas JK e Higienópolis. Minha mãe – sempre presente em todos os momentos chave – através de seus contatos, conseguiu um lugar para mim na casa de um seminarista, conhecido de uma pessoa conhecida. Assim as coisas acontecem, um ajuda o outro. Ele se chamava Rudimar. Deveria ter o dobro da minha idade. Havia retornado muito recentemente de Londres, onde passou 1 ano. Foi para lá sem saber 25 palavras em Inglês. Voltou fluente. Apresentou-se numa escola de Inglês de Londrina, buscando trabalho. Riram dele. Começou então a falar num estilo britânico perfeito, melhor do que o de qualquer professor super graduado daquele local. Ele não tinha títulos. Mas ele sabia muito. O cara era muito inteligente. E tinha alguma sabedoria também, até onde meus limitados 17 anos permitiam apreender a diferença.
Rudimar pegava muito no meu pé. Agradável, quase sempre. Mas não tinha paciência com gente mimada. Toda vez que eu soltava uma frase do tipo “Isso eu não gosto”, “Isso eu não quero”, ele me imitava dizendo o mesmo, com uma careta e voz cômica, rindo do meninão. “Cresça, Fernando! Na vida adulta não tem muito espaço para não gosto e não quero. Você se vira com o que tem em mão. Esta é a realidade”. Isso acontecia muito seguidamente, e foi somente assim que eu percebi o quanto eu dizia “não gosto” e “não quero”. Claro que eu garrei uma raiva silenciosa dele. Xingava por dentro, queria dar no meio da cara dele. Mas, como já é sabido, não sou violento (fisicamente) e por isso tudo ficava de boa, o tanto quanto possível.
Ele não fazia por mal. Ele, um estranho, foi a primeira pessoa que me mostrou um pouco de como a vida funciona fora do maravilhoso e seguro ninho da casa dos pais. Rudimar tinha propriedade para falar. Desceu em Londres com uns trocados e sem falar a língua estrangeira, sem ninguém esperando no aeroporto, um lugar para ir, nada. E o fez consciente, de propósito. Ele quis passar por aquilo, sentir na pele o que é ter que se virar numa situação extrema. Não me recordo se chegou a dormir ao relento. Certamente precisou dormir em lugares inadequados. Passou frio. Sentiu fome de verdade, daquela que te faz comer qualquer coisa, com toda a urgência possível. Sem nojinho. Também não me recordo se chegou a pedir dinheiro. Acredito que não. Mas teria pedido, se fosse preciso. Em situações extremas, você faz tudo. Essa é a nota de corte, a linha que separa algo que você ainda consegue escolher fazer ou comer, de algo que do jeito que é, está mais do que bom, e você nem olha para mais nada.
Um ano na gringa, virando-se e aprendendo na pele que “não gosto” e “não quero” eram luxo, o credibilizavam a pegar no meu pé o quanto quisesse. Ele só queria o meu bem. Ele só queria ver um menino crescido, que caminhava para a vida adulta, criando uma primeira casca para tudo que o mundo exterior tem de espinhos para nos riscar. Mimaaaado ao extremo eu não fui. Eu vinha de uma família simples, com orçamento limitado, mas o básico havia. Um teto. Estudos. Roupas limpas. Comida. Um Corcel II para nos locomovermos. Paz. Respeito naquele lar. Luxo algum, se comparado com muitos dos meus amigos da juventude. Algum luxo, se comparado com minha nova condição em Londrina, provisoriamente ocupante de um quarto na casa do seminarista, e com R$100,00 à minha disposição para passar o mês. E todo luxo do mundo, se colocado frente a frente com aqueles moradores de rua que iam dormir nas proximidades do Zerão.
Uma das situações que mais extraíam caretas do Rudimar, era quando eu dizia não gostar de comer algo. Aí ele se deliciava. Eu falava “não gosto uai, não sou obrigado a comer”. Em algum diálogo nosso, eu devo ter dito que já sentira fome alguma vez, quando então a conversa ficou séria. Ele tirou o sorriso do rosto e me falou o que era sentir fome. Era a mesma ideia da nutricionista do Instagram, só que expressada 26 anos antes, por alguém com conhecimento de causa. Não foi uma bronca, uma briga, ou coisa assim. Foi um papo sério. “Fernando, eu não faço isso por mal. Sua mãe conversou comigo, ela me passou as informações básicas, sei que você tem um pequeno orçamento, sei também que na sua casa você tinha mais do que aqui, só que agora é diferente. Eu pego no seu pé para o seu bem. Eu já reparei que você nem sempre consegue chegar ao final do mês, sem ter que pedir um dinheiro extra. Reparei também que às vezes você gasta parte do seu dinheiro com coisas desnecessárias. Então recorre à sua mãe. Pega uma ficha, vai ao orelhão, liga, então milagrosamente no dia seguinte surgem 10, 15 ou 20 reais para passar o restante do mês. E se não houvesse mamãe? E se fosse só você? Pense nisto”.
Aquilo me levou a uma reflexão importante. Claro que eu falhava na administração dos R$100,00. Comprava um doce a mais. Uma passada no fliperama do Catuaí com os colegas de UEL. Suco na rodoviária. Uma coleção de materiais de desenho, dos mais caros, sendo que os mais em conta serviam igual. E assim o mês era longo demais para aquele salário-mínimo.
Sou ensinável. Disse isso no texto 25. Lá eu meio que explico o que entendo por esse conceito.
Fui bastante diligente no mês seguinte, fiz meus esforços. Ainda assim, sobrou mês e faltou dinheiro. Precisei usar mais uma ficha no orelhão, faltando uns 5 dias. Um progresso. Normalmente eu teria ligado faltando 10. Sim, ficou claro que a administração não tinha sido nada boa nos meses anteriores à enquadrada do Rudimar. Reuni ainda mais determinação e passei para o período seguinte focado em fazer acontecer. Na verdade, eu só queria conseguir e esfregar na cara do Rudimar o meu êxito, ao que ele certamente diria não ser mais que minha obrigação, com uma gargalhada. Essa conversa nunca chegou a acontecer.
Mês seguinte, a grana praticamente acabou faltando 3 dias. Era pouco. Não dava para tudo. Supérfluos, docinhos, fliperama, de jeito nenhum. Eu basicamente teria gastos de duas naturezas naqueles próximos três dias: locomoção e alimentação. Pelo menos 6 passagens de ônibus. Pelos menos 3 almoços na UEL. Café da manhã, lanche no fim de tarde? O que houvesse na despensa de casa, e àquela altura só tinha água e bolacha água e sal. Foi difícil. Eu senti fome naqueles dias. Eu chorei de fome. Faltei à aula para poder comer algo; uma marmita pequena, que ser viu para almoço e janta... no segundo dos três dias. Para no terceiro só ter os recursos para duas passagens de ônibus – prova, não tinha como faltar – e refeição alguma, de manhã, de tarde, ou de noite. Havia alimento na casa, mas era do Rudimar. Eu não peguei. Também não pedi. Não por orgulho. Lembra? “E se não houvesse mamãe?”. E se não houvesse Rudimar? E se fosse apenas eu numa casa vazia, sem nada? Foi importante passar por aquilo.
Dormi com a dor da fome, mas fechei o mês com R$100,00. Eu consegui.
Na manhã seguinte, primeiro horário, aquela ligação desesperada para a Dona Mirian. Não sei se ela já havia recebido o salário, para me repassar a próxima cota. Sei que ela percebeu que algo estava errado, disse ter notado que não pedi um extra nos dias finais do mês anterior, quando então relatei o que havia ocorrido. Tomei uma bronca. Disse-me que não fizesse mais aquilo, que família existe para cuidar uns dos outros, etc. Sim, eu sabia de tudo aquilo, mas eu precisava fazer. Era importante sentir na pele a vida adulta, pela primeira vez. Acho que nem na pele. No estômago.
Imagine uma mãe recebendo a notícia de que seu filho, morando a 400km de distância, sem dinheiro, está há 3 dias sem comer direito, e que no último ele não comeu nada. Nessas horas, mães movem céus e terras. Não havia pix, celulares com Apps, Ifood, nada. Havia um Banco Banestado que só abria tal hora, e lá dentro uma operação de transferência seria feita, para em algum momento a grana estar disponível na outra ponta da linha. O filho com fome, lá em Londrina, consultando o saldo de tantos em tantos minutos, até que finalmente apareceram os R$100,00. Mais do que depressa, saquei o dinheiro e corri para comprar uma marmita grande. Frango xadrez. Dizem que a gente mal se lembra do que comeu no almoço de ontem. Mas se você sentiu fome de verdade, lembra até do gosto, 26 anos depois.
...
PS: Escrevi, na abertura do texto, que eu “acordei com fome”. Mas não hoje. Hoje eu acordei com a necessidade de comer, ou por hábito, ou porque meu corpo está acostumado e já espera a vitamina de frutas com whey, ou um mingau de aveia nos dias frios, ou duas bisnaguinhas com queijo e lombo na sanduicheira. Ainda não comi. Fiz questão de este escrito ser escrito com o momentâneo desconforto de não ter comido nada, apenas para me lembrar, a cada teclada, que isso não é fome.
Fome, leve fome, foi aquele vislumbre que tive em 1995.
Fome, fome de verdade mesmo, ao ponto de comer qualquer coisa, acredito que essa eu não cheguei provar.
Façamos, todos, algo por quem precisa. Principalmente de comida.
“Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado”. (Tiago 4:17)
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