Já que no estádio civilizatório em que nos encontramos, não cabem arenas para resolvermos fisicamente nossas tretas, os grandes duelos migraram para o campo da fala. Como já comentei nalgum escrito anterior, sou totalmente anti-violência física, ao ponto de nunca em toda a minha vida ter desferido ou sofrido uma agressão. Não que não haja uma base para tanto, se for necessário; não que já não tenhamos tido uns bons treinos de boxe e muay thai. Se o bicho pegar, a gente se vira. Mas o fato é que o ato de agredir é para mim extremo, sempre e sempre um último recurso. Jamais um ponto de partida. Um empurrão pode constituir-se em agressão. Neste mundo louco, pode até resultar na expulsão de uma celebridade num reality show. Por 1 milhão e meio, qualquer resvalão vira voadora...
Não, o tema principal deste escrito não serão as agressões físicas. Sim, abordaremos tangencialmente, mas o foco mesmo estará nas agressões de outra natureza: verbal/psicológica.
Quando morei em Curitiba (maio/2013 a maio 2014), naqueles treze meses eu estreitei a convivência com um precioso amigo: Marcelo Bomfim. Um cara que eu conhecera pouco antes, creio que em 2010 ou 2011, e de quem não gostei muito no início. Ele veio de Curitiba a Maringá para ministrar na igreja num fim de semana, e a certa altura na reunião de jovens, enquanto ele cantava e tocava teclado, eu me encontrava bem fechado. Azedo aquele dia. Não me lembro por qual razão, mas eu não queria estar lá, e para o azedume ficar completo, me aparece um cara que durante a ministração fica interagindo com os presentes naquele jeito que eu “adoro”: “Olhe para a pessoa que está ao seu lado e diga tal coisa...”, “Saia do seu lugar e cumprimente pelo menos 5 pessoas...”. Putz, eu quase saio do salão nessas horas. E o legalzão do Marcelo só fazia mandar uma dessa atrás da outra. Até que em algum momento o próprio desce lá do tablado e vai pro meio da geral, para também interagir. Veio justamente até mim. Eu sorri amarelo, cumprimentei com “a paz do Senhor”, dei um abraço de porco-espinho e só queria sair logo dali. Peguei aversão na hora. Isso foi num sábado.
Manhã de domingo, tradicional almoço na casa da Dona Mirian (minha mãe), e quem é o convidado especial do dia? Marcelo Bomfim. O próprio. Putz, de novo! Justo o cara. Mas beleza, colocamos o mesmo sorriso amarelo da noite anterior e bora sobrevier àquela hora, hora e meia à mesa. Conversa vai, conversa vem, fui vendo que o cara não era assim tão chato. Na verdade, uma figura, engraçado, e a coisa toda foi melhorando. Até que chegou o ponto alto das conversas: descobri que ele era filho do saudoso Professor Bomfim, que me deu aulas de História em Cornélio Procópio nos idos de 1989-90. Essa informação mudou por completo meu ânimo, então passei a conversar levemente com o Marcelo. Foram horas muito agradáveis. Naquele final de semana nascia nossa amizade, uma grande amizade.
Ah, a parte engraçadíssima daquele dia foi quando descobrimos que eu tinha sido fã de uma moça da minha igreja, nos mesmos idos de 89-90, que foi namorada dele. “Caaara, seu batedor de carteira! Estava de olho na minha mina”, e ríamos sem parar
Pois bem. Uns anos depois, morando em Curitiba, pude conviver de perto com meu amigo. Ele, sua esposa Josi, e as duas filhas adolescentes (na época, 2013-14) me adotaram. Desde meu primeiro dia na capital, até minha festa de despedida – surpresa, com dezenas de pessoas, às vésperas do meu aniversário de 37 anos – eles me acolheram de uma forma indescritível. Foram minha família. Além disso, o Marcelo era meu discipulador, uma figura automaticamente compreendida por quem é do meio evangélico. Para quem não sabe do que se trata, eu diria resumidamente que é uma pessoa mais experiente que você, e que caminha com você para te auxiliar na sua caminhada, e que acaba sendo ajudada por você também, cedo ou tarde. Uma interação muito positiva.
Tivemos muitas e muitas horas de boas conversas naqueles meus 13 meses em Curitiba. Conselhos, direções, comunhão, papos sérios, mas nunca uma enquadrada forte, daquelas que mais parecem broncas e que você fica até com vergonha. Afinal, eu não era de dar trabalho. Bem, aparentemente eu não dava, até que tempos depois eu vim a conversar com ele sobre algumas coisas não muito legais que eu fiz. Pedi perdão por não ter sido 100% transparente, etc. Algo que não precisamos entrar em detalhes. Nada gravíííííssimo. Mas um compromisso de transparência só se efetiva se você o faz por completo, e eu havia sonegado ao meu discipulador algumas coisas. Então, bora admitir o erro e consertar.
Enfim, vida que seguia por lá, o discipulado rolando, e uma forma que encontramos de tornar o processo muito leve e interessante, foi pedalando juntos. Fosse apenas em dupla, ou também com mais amigos, aquela atividade nos proporcionava um tempo de muita qualidade. Porque na bike, como todo praticante sabe, você consegue unir o esporte a uma excelente interação pessoal, com o bônus de conhecer lugares novos. Semanalmente marcávamos o rolê. Tudo corria assim, até que ao final de um passeio com vários amigos, quando um a um foi ficando nos seus bairros, restamos eu e o Bomfim. Tivemos esse pequeno-grande diálogo:
- Cara, nem acredito que este dia chegou...
- Hum...
- Fer, preciso te dar um puxão de orelha. Tem algo que você faz que não é legal.
- Opa, vamos lá. Diz aí.
- Você tem se perdido no falar. Eu noto que tuas postagens no Facebook são muito agressivas. Quando você entra em tal e tal temas, dá para sentir nos seus textos a raiva. Isso não é legal.
- Certo.
- O que você diz lá, no conteúdo, não é errado. Eu concordo. Mas está se perdendo na forma. Deus não te deu boca para falar com essa agressividade toda.
...eu ouvindo...
- Então, como seu discipulador, preciso chamar sua atenção para que corrija isso. Você não precisa se manifestar sobre tudo. E quando entender que um tema mereça ser falado, fale como Cristo falaria. Não use palavras que entristeceriam o coração de Deus.
- Está certo, mano. Eu reconheço que isso acontece. Vou corrigir.
- Yes, finalmente rolou a bronca no Fer. (risos de ambos)
Não foi exatamente com essas palavras, mas o sentido da prosa não está fora um milímetro da realidade.
Concluímos o pedal. Ele desceu pela Kennedy. Segui para o centro, pensando naquela conversa e já me organizando interiormente para os ajustes que eu faria. Tenho uma característica que gosto: sou ensinável. Tenho opinião, claro. Algumas convicções, claro. E quando encontro base para sustentá-las, não é muito fácil debater comigo. Porque eu defendo, e defendo com força o que eu acredito. Até que eu veja algo que me convença do contrário, gerando em mim uma resposta-mudança praticamente instantânea. Ser ensinável tem a ver com isso. Não é dizer amém para tudo de primeira, só “sim, senhor”, “Ok”, e nunca questionar nada. Mesmo uma pessoa mais experiente pode ter convicções erradas, o que não me obriga a concordar irrefletidamente. Discordar e questionar não me torna um rebelde. Eu questiono sim, mas se uma nova compreensão daquela realidade vem, minha resposta é imediata.
No mesmo dia, a partir daquela conversa e até hoje, o grau de agressividade naquilo que posto caiu muito. Eu era um POLEMISTA. Um plantonista fiscalizador de informações, que adorava contrapor argumentos. Logo postava no perfil das pessoas as minhas opiniões, contrárias às delas, invadindo sem pedir licença um espaço que não era meu. Que coisa feia. Fazia isso e ainda achava que tudo bem. E para ficar completão o ambiente de debates sem fim, eu também postava muito nos meus espaços as minhas opiniões, e pessoas semelhantes a mim vinham invadi-lo com seus argumentos contrários, gerando minha reação, e uma nova dela, num ciclo insano. Que coisa feia de todos.
Até o início de 2019 eu tinha conta no Facebook. Quase não utilizava o Instagram.
No Face, embora já com a agressividade nas palavras sob controle, eu não me furtava de falar sobre tudo. Política, em especial. Acompanhava avidamente os acontecimentos, tirava o print de alguma notícia, e blá blá blá despejar minhas ideias. Rolava alguma influência nas pessoas? Acredito que sim, até onde sei. Pessoas não apenas curtiam, mas também comentavam, e sei que muitas se alinhavam ao “geralzão” do meu pensamento sobre Brasil, política e outras coisas bem complicadas de resolver. Até que um dia fiz uma postagem que repercutiu de uma maneira diferenciada. Postei numa noite, para na manhã seguinte descobrir que havia mais de 2 mil compartilhamentos, com milhares e milhares de mensagens, 50% me chamando de santo, e 50% de demônio. Alguma semelhança com os dias de hoje?
O pior, é que eu me dei ao trabalho de responder a cada uma – cada uma mesmo, 100% - daquelas milhares de mensagens, explicando para a imensa maioria que só leu a manchete e viu as imagens, sem ler o texto completo, ou compreendê-lo minimamente, que elas estavam me xingando por nada. Quem então se deu ao trabalho de ler, ou pediu-me desculpas pelo xingão, ou então soltou um lacônico “Ah, blz. Agora entendi”. Foram aproximadamente 3 dias para a coisa esfriar. Ao final, uma sensação estranha. Aqueles xingamentos todos, gente dizendo que eu era pior do que lixo, um ser desprezível, um cara que nem merecia viver, etc, etc, etc...
Existe um princípio geral, que se aplica a quem crê e a quem não crê: TUDO O QUE O HOMEM SEMEAR, ELE TAMBÉM VAI COLHER. Você pode não gostar dele, mas o princípio existe e acontece do mesmo jeito. Embora eu tivesse feito correções na minha abordagem, e corrigido as pitadas de agressividade, ainda gastava meu tempo como um opinador sem propósito, talvez buscando likes, ou seguidores, ou a gostosa sensação de vencer um debate. Beleza, não era necessariamente errado. Mas, se me aventurei a ficar falando coisas a torto e a direito, cedo ou tarde chegaria a colheita de também ouvir coisas a torto e a direito. Fifty-Fifty. Metade me amando. Metade me odiando. É princípio. Não falha.
Naquela mesma semana eu tomei a decisão de encerrar minha conta no Fabebook. Decidi e executei. Nunca mais olhei para trás, quanto a isso. Deixei um histórico de muitos anos de uso, fotos, contatos, postagens, para um lugar no meu passado de polemista. Automaticamente migrei para o Instagram, cuja conta eu já possuía, mas raramente movimentava. Desde então, nesses pouco mais de 2 anos com maior participação no Insta, pautei-me por um critério: não trazer para cá os erros de lá; mostrar alguns aspectos da minha vida; passatempos; meu amor pelos livros; meu amor pela família; acabou acontecendo nesse mesmo período meu grande envolvimento com a bike, as postagens de pilates – de que tanto zombam alguns amigos meus, bem mal resolvidos na masculinidade rs – e tudo mais que eu tenha a ideia de colocar neste espaço.
Fechei os olhos para a realidade? De forma alguma. Continuo atento aos fatos da vida, às mazelas do país, estou por dentro das coisas. Não como em tempos passados, quando eu corria atrás de todos os detalhes. Hoje eu faço diferente, algo sobre que vou escrever muito em breve. Anoto um pequeno spoiler: você não precisa correr atrás das notícias, porque elas correm desesperadamente atrás de você; o que é realmente importante, ainda que você nunca ligue a TV, vai chegar ao seu conhecimento. Este futuro texto terá o título MEU REFÚGIO MENTAL. Será bem legal.
Caminhando pros finalmentes, hoje eu me considero um EX-POLEMISTA. Aquele gosto de sangue na boca, ao vencer um debate, felizmente não faz mais parte da minha vida. Talvez alguma maturidade tenha se instalado nesta área. Prefiro ter paz, do que mostrar que tenho razão. Porque razão eu normalmente tenho, só não preciso ficar esfregando isso na cara dos outros. Brincadeeeira!!!
“Evite as controvérsias tolas e inúteis, pois você sabe que acabam em brigas. Ao servo do Senhor não convém brigar, mas, sim, ser amável para com todos, apto para ensinar, paciente. Deve corrigir com mansidão aos que se lhe opõem, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento, levando-os ao conhecimento da verdade, para que assim voltem à sobriedade e escapem da armadilha do diabo, que os aprisionou para fazerem a sua vontade”. (2 Timóteo 2:23-26)
E os anjos dizem amém.
Gostei demais!! Me identifiquei profundamente, no meu caso tb percebi a lei a semeadura, adquiri maturidade, e amor de Cristo sempre atraindo.
ResponderExcluirGostei demais! Às vezes leio alguns posts e fico me questionando se a pessoa não gostaria de ter dito aquilo para uma pessoa específica!
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