Ontem assisti a um filme que estava curioso para ver: Wonder Woman 1984. Nem tanto pela personagem dos quadrinhos; um pouco pela Gal Gadot; e muito pela época em que a fictícia história se passa. Quanto aos quadrinhos em geral, mal sei o básico. Sou fã do Wolwerine, mas nem sei dizer se o carrancudo de adamantiun é DC ou Marvel, só pra você sacar o meu nível de (des)conhecimento. Quanto à Gal Gadot, também pouco sei. Mas uma coisa que eu sei, é que ela é linda, linda, linda demais. Para mim, mais que a Angelina Jolie, que por algum tempo foi quase unanimidade em termos de beleza feminina. Acho que a Gadot tem mais personalidade, e isso agrega, sobressai. Por fim, quanto à época, os anos 80 foram minha infância. Nasci em 1977, o que significa que as lembranças mais remotas que tenho claras na minha mente, são da década seguinte. As músicas, roupas, os cabelos extravagantes, o estilo. Embora eu fosse criança naquele período, lembro-me bem de como tudo se passava, então é bacana assistir a um filme ou série que tenha aquele jeitão. Stranger Things, por sinal, eu curti demais. Nostalgia.
Bem, como alertei na figura escolhida para utilizar neste escrito, teremos spoilers. Então, caso não tenha visto o filme, e não queira saber mais, pare de ler agora mesmo. Assista, e depois volte.
Os problemas começam quando Max Lord tem acesso a uma pedra mágica, feita por um deus mal, que concede à pessoa seu desejo mais profundo. Se a pessoa estiver tocando a pedra e pensar ou verbalizar firmemente seu maior desejo, ele se realiza. E qual foi o desejo do Max? Loucão, ele desejou tornar-se a própria pedra! Uow, aí sim as coisas ficaram complicadas. Seu desejo foi realizado e, a partir de então, ele passou a ser a fonte realizadora dos desejos de tantos e quantos o tocassem. Antes disso, quando a pedra era apenas a pedra, Diana e Barbara, sem saber, expressaram seus desejos profundos, e ambas os receberam. Barbara, uma mulher sozinha, desprezada, sem um brilho que a destacasse na multidão, desejou tornar-se como Diana: linda, inteligente, desejável, sofisticada. Mas Bárbara não sabia que Diana era a Mulher Maravilha, cheia de poderes e habilidades. Então, de bônus, Barbara foi pouco a pouco se dando conta de que uma grande transformação havia ocorrido. Uma transformação maravilhosa.
Diana, por sua vez, desejou algo impossível: ter seu grande amor de volta. Ele havia morrido, décadas antes, numa explosão em seu avião. Sobrevieram a Diana muitos e muitos anos de solidão, lembranças, certamente tristezas por não ter tido o tempo necessário para viver seu grande amor. Quando de repente ele aparece de volta. A pedra mágica fez o impossível acontecer. Diana e seu amor tiveram uma nova chance, só que agora num mundo novo para ele: 1984. A cena dos dois sobrevoando os fogos de artifício do 4 de julho, é simplesmente linda. Ah, coisa que não costumo fazer, mas que excepcionalmente me permiti ontem, foi ler algumas críticas de especialistas sobre o filme. Do que li, notei que não foi considerado um filme excelente, roteiro meio mal construído, diálogos extensos demais, cenas de ação deixaram a desejar, personagem da Mulher Leopardo (Barbara) pouco explorada em sua forma final. Enfim, não é um filmaço – também não achei – mas ele contém uma mensagem relevante.
Após apossar-se da pedra e tornar-se a própria pedra, Max Lord começou a agir. Inicialmente, buscando realizar seus próprios desejos, bem como os desejos de algumas pessoas que, realizando os delas, acabavam beneficiando a ele. E nesta sanha de distribuir ilimitadamente desejos realizados, muita confusão começou a rolar. E um efeito colateral: Max começou a adoecer, ficar fraco. Muito esperto, ele entendeu como driblar o problema. E assim, seguiu seu plano. Quanto mais desejos dos outros ele realizava, mais caos se instalava no mundo. Interessante também que Barbara e Diana começaram a sentir efeitos colaterais, decorrentes da concretização de seus desejos. A Mulher Maravilha, sempre incrível e invencível, enfraqueceu. Sofreu ferimentos em combate. Sangrou. Já não desfrutava de sua plenitude, mais ou menos o mesmo que ocorreu com Wolwerine no filme Logan. Ele então demorava mais para curar-se dos ferimentos que sofria. Os efeitos colaterais em Barbara foram diferentes. Embora ela ficasse mais e mais poderosa, tornou-se má, insensível, cruel. Antes, era uma pessoa boa, ingênua e solícita.
Vendo-se premido por problemas e mais problemas, decorrentes do caos instalado pelos muitos desejos que ele havia concedido, Max Lord teve a “grande ideia”: numa transmissão global, utilizando-se de um fictício sistema via satélite, cujas ondas tocariam (literalmente) cada pessoa na Terra, ele daria a cada uma a oportunidade de realizar seus maiores desejos. Ele o fez. A coisa ficou feia. Um ciclo insano e destrutivo foi acelerado de forma exponencial. Neste ponto, o filme mandou muito bem, pois dá para ver e sentir como seria um mundo assim. Uma loucura. Lembremo-nos que os anos 80, militarmente falando, significam Guerra Fria. Havia muitos e muitos foguetes apontados de lado a lado, e no filme eles são disparados. O desfecho e como eles vem a não explodir, depois você assiste e confere.
Mas havia um jeito de desfazer todo aquele caos. A Mulher Maravilha e seu amado o perceberam: era necessário renunciar ao desejo. Sem fazê-lo, Diana chegaria ao ponto de se tornar mortal. Fazê-lo, significaria voltar à solidão, pois seu desejo era seu grande amor consigo. Coisa que talvez você não saiba, é que eu choro em filmes. Não aquele choooro de soluçar. Fica mais bem descrito como sentir as emoções que eles queriam que sentíssemos com a cena. E eu, quando entro num filme, me emociono fortemente. Aquela sequência onde Diana tem que tomar a grande decisão, e luta consigo. A encruzilhada de manter seu grande amor, ou renunciar a ela para curar-se e poder salvar o mundo. Foi de cortar o coração.
Falando em teoria, parece fácil. Mas quando doer de verdade na pele, só então saberemos se somos ou não capazes de uma grande renúncia. Bem, eu falei que tinha spoiler. Ela o fez, renunciou ao seu maior desejo e não olhou para trás. Não sem dor. Não sem um corte incurável no coração. Gal Gadot mandou bem demais naquela cena. Enquanto se afastava dele, correndo mais e mais rápido, ainda em lágrimas, suas feridas foram cicatrizando, seus poderes voltando, e então ela deu um grande salto em direção ao alto. Finalmente Diana conseguiu dominar o ar e o vento. Diana agora conseguia voar. Outra cena linda. E por ser a Gal Gadot no papel, ficou demais.
Os detalhes finais do filme, você confere lá. Já contei quase tudo.
Pois bem, falei, falei, falei... utilizei praticamente o tanto de palavras que normalmente coloco num texto pronto, para somente agora entrar naquilo que quero realmente dizer. A conversa séria começa...
Seria possível um mundo onde todos os desejos fossem realizados?
Antes de responder com um mecânico “não”, convido você a pensar. Exemplificar ajuda. Digamos que meu maior desejo fosse ser o maior escritor do mundo, e que pelo menos mais algumas centenas de pessoas quisessem exatamente o mesmo. Como só pode haver um – assim diriam os highlanders – nenhum seria o melhor. È algo logicamente impossível. Ou se toda pessoa que gosta de alguém desejasse ficar com ela. Da mesma forma, se duas ou mais pessoas gostassem da mesma, como todas poderiam realizar seus desejos plenamente? E por aí vai. Isso para falar apenas das impossibilidades lógicas de um mundo com tudo realizado para todos.
Mas, digamos que o problema da lógica fosse superável e, sim, todos os desejos pudessem ser realizados ao mesmo tempo. O que viria a partir disso? É possível vislumbrar um mundo sustentável com este quadro? Bem, algumas cenas de Mulher Maravilha 1984 dão um vislumbre do caos. Penso que não, um mundo assim estaria fadado ao colapso.
Vamos ainda mais fundo...
Partindo para uma aplicação pessoal, deixando um pouco de lado o quadro da hecatombe global, como seria a vida de uma pessoa sem limites na realização dos seus desejos? Recursos ilimitados. Acesso a tudo. Nenhuma regra que contenha “não” em seu enunciado. Não estou falando de todas as pessoas do mundo, mas de uma única. Talvez não fosse tão ruim assim, né?! Afinal, como uma pessoa sem limites poderia afetar todas as outras bilhões que há no planeta? Bem, pensando cá com meus botões, acho que a História nos dá exemplos que pessoas assim existiram. Houve caos. Coisas terríveis foram feitas por pessoas sem limites. Cedo ou tarde, a embriaguez da “ilimitação” toma conta, enlouquece, e coisas ruins começam a acontecer. Não apenas para ela mesma, mas pouco a pouco para as pessoas próximas, e fatalmente para todos os outros. Uma pessoa sem limites é perigosa. Com o Max Lord foi exatamente assim.
Este texto vem fechar algumas reflexões que tive em semanas recentes. Denominei a série de “Pequeno Decálogo de um Cara Sistemático”.
Texto 007 – Sempre Sóbrio
Texto 008 – Ordem na Casa
Texto 009 – Desejos à Vista
Texto 010 – Tempo para Todas as Coisas
Texto 011 – 120km/h
Texto 013 – As Opiniões dos Outros
Texto 014 – Apenas um Doce
Texto 015 – Mais Sabedoria, Menos Títulos
Texto 017 – O Plano B
Texto 018 – Sempre na Casa do Pai
O que é um Decálogo?
De acordo com o dicionário do Google, pelo viés religioso, são “os dez mandamentos ou preceitos da lei de Deus, escritos em duas tábuas de pedra e entregues a Moisés no monte Sinai, segundo o livro do Êxodo”; por extensão, outra definição possível é o “conjunto de dez normas ou princípios”.
Eu tenho algumas normas e princípios que me limitam. Não apenas dez, mas muitas mais. Por qual razão eu faria um decálogo para mim? Afinal, já existem tantas leis, decretos, regras e limitações impostas de fora. Por que criar mais? Não seria melhor lutar por um mundo com menos regras e mais liberdade? Menos limites, e mais desejos realizados ilimitadamente?
Algo que um dia entendi, é que as regras existem para nos proteger. Os limites têm seu lado bom, lado este que na verdade é muito superior ao pequeno dissabor causado pela parcial limitação de nossa liberdade absoluta. Nossa humanidade não tem condição de administrar poder absoluto, liberdade absoluta, desejos ilimitadamente atendidos. Nós nos perdemos. Eu me perderia. Veja só o que meu Pequeno Decálogo mostra:
Por que limitar meu consumo de álcool a uma dose? Porque isso me deixa sóbrio, garantidamente sóbrio, e pessoas sóbrias fazem menos bobagens. Eu já fiz bobagens, mas não por conta de uma dose a mais. Conheço gente cujos maiores problemas advieram de uso excessivo de álcool. Talvez, se tivessem ficado na única dose, mantendo a sobriedade, suas vidas seriam menos problemáticas.
Por que impor a mim mesmo, um cara que vive sozinho, a condição de estar com a casa sempre em ordem, mesmo que ninguém vá entrar no apartamento naquele dia? Porque isso reflete meu mundo interior, organizado e limpo, funcional, um lugar onde posso convidar alguém para estar.
Por que somente comprar à vista as coisas que desejo, se tenho crédito e bom nome na praça? Porque a leveza de uma vida sem dívidas vale a pena, e o tempo de amadurecimento de cada aquisição me permite saber se realmente preciso daquilo, ou se fui pego pelos impulsos de consumo.
Por que separar tempo para todas as coisas, mesmo aquelas que não me geram lucros? Porque a vida não é só trabalho, não são apenas cifras ou bens. Porque uma vida equilibrada tem descanso, lazer, família, tempo para Deus, e muitas coisas importantes e não monetizáveis.
Por que rodar com minha CB 750 Four a no máximo 120km/h, sendo que ela facilmente vai a 150, 160, 170? Porque eu já vi de perto a morte sobre duas rodas, e senti na pele o quanto o corpo humano é frágil. Não se brinca com a vida.
Por que limitar a umas poucas pessoas as opiniões que realmente me importam, ainda que isso me custe não ser popular ou famoso? Porque número de seguidores não significa nada. Porque 99% das pessoas que curtem algo seu, 5 segundos depois já estão curtindo outro algo, e depois outro, e outro. Você foi apenas uma distração momentânea. O que é importante mesmo, vem de uns poucos.
Por que me limitar a apenas um doce por dia, sendo que sou magro, nenhuma propensão para diabetes, peso em dia, etc? Tá, tá, tá... esta regra eu sempre quebro, mas ela existe para me lembrar que preciso estar sempre atento ao prato. No longo prazo, muitos benefícios virão.
Por que dou mais valor a sabedoria do que a títulos, sendo que estes geram mais status e, normalmente, até mais retorno financeiro? Porque “melhor é a sabedoria do que rubis; e tudo o que mais se deseja não se pode comparar a ela” (Provérbios 8:11)
Por que ter um Plano B, e não adotar um estilo de vida mais leve, de boa, o que vier tá valendo? Porque seria uma receita para o desastre. Parece ótimo viver uma vida ao sabor do vento e das emoções, mas isso só fica bem nos filmes. A vida real exige de nós um mínimo de planejamento e, sim, o precioso Plano B.
Por que manter a firme decisão de sempre estar na Casa do Pai, se isso me custa, por vezes, abrir mão de fazer outras coisas que gosto? Porque é o melhor lugar onde eu poderia estar. E mesmo quando eu ache que não é, continua sendo minha rocha de segurança em meio às tempestades da vida.
Se olharmos atentamente, todas essas 10 regrinhas contêm limites. Mais limites do que esses que rapidamente anotei acima. Mais, muito mais limites do que aqueles que você percebe na leitura dos 10 textos completos. Eu coloco limites, porque preciso deles. Eu me conheço. Sei dos meus gaps. Não sou infalível. Meu caráter vai sendo lapidado dia após dia. Quem sabe uma regra que hoje seja vital para me proteger de mim mesmo, ou proteger aos outros de mim, no futuro não precise mais existir. Mas se hoje ela faz parte dos limites que me impus, ela será observada. Eu, Fernando, sem limite algum, com o poder de ver meus maiores desejos realizados, cedo ou tarde geraria caos. Primeiramente para mim mesmo. Rapidamente para pessoas perto de mim. E cedo ou tarde em escalas muito maiores. Não quero ser um Max Lord. Nem quero um perto de mim.
Você pode pensar que uma vida assim, autolimitada, seja triste e frustrante. Pelo contrário. Quando entendo a razão de eu não dar vazão a alguns desejos, isso não é peso. Não fica tão difícil. O entender torna mais fácil. Mas ainda que eu não compreenda plenamente aquela limitação específica, o que me alenta é uma compreensão maior, mais ampla, de que regras existem para organizar as coisas e me protegerem.
Quem sabe a satisfação ilimitada dos seus desejos mais profundos, seja a causa das feridas que não fecham. Quem sabe esteja aí sua dificuldade de dominar o ar e o vento, para ter acesso a um horizonte muito maior. Quem sabe a momentânea satisfação é que te prenda ao chão onde se encontra, impedindo-te de voar. Assista ao filme. Ela dominando o ar e o vento, é a cena que mais gostei. E sim, a Gal Gadot é mais bonita que a Jolie.
Uau, este é o melhor de todos! Adorei
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