“E, tornando em si, disse: Quantos jornaleiros de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros. E, levantando-se, foi para seu pai...” (Lucas 15:17-20)
Eu já estive longe de Deus. Quando? Quando pequei. Mas não fiquemos numa resposta simplista. Gosto sempre de olhar mais fundo. Uma coisa é pecar inadvertidamente, num deslize, como aconteceu hoje. Dei uma resposta ríspida a uma pessoa, sabendo na mesma hora que passei um pouco do ponto. Outra coisa é viver deliberadamente em pecado, saber que algo é errado e ainda assim, em rebeldia, prosseguir mais e mais fundo naquilo. Algo que recebe um nome mais pesado: INIQUIDADE. “Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça”. (Isaías 59:2)
Não vamos aprofundar hoje o entendimento sobre essas duas realidades (pecado e iniquidade), mas o fato é que uma e outra aborrecem ao Pai. Não se trata de “pecadinho” e “pecadão”, porque pecado é pecado, mas o fato é que a escolha consciente de afrontar a Deus em algo que sabemos ser contrário a Ele, tem sim um peso maior. Cabe um paralelo com as relações humanas. A fala áspera que tive hoje com uma pessoa em frente ao prédio, fruto de uma reação inconsciente, não planejada, penso ser diferente de uma hipotética decisão consciente de ser grosseiro, tratar na brutalidade e fazer prevalecer minha vontade no grito e na força. São coisas diferentes. Uma foi um deslize, outra é uma forma de viver. Creio que Deus olhe mais ou menos assim para nossas falhas eventuais, diferenciando-as da atitude consciente e rebelde de afrontar seus princípios. Enfim, falei que não iria aprofundar, mas eu não me aguento, rs. Então paramos por aqui. Outra hora vamos mais fundo nisto.
Sim, eu já estive longe de Deus. Tanto por pecados (entre aspas) “menores”, como também por vergonhosas iniquidades “grandonas”. Já fiz coisas muito, muito feias. Não vou mencioná-las. Não por vergonha ou para preservar minha imagem. Como disse no texto “013 AS OPINIÕES DOS OUTROS”, as opiniões de bem poucos importam verdadeiramente para mim. Alguns amigos dizem até que eu deveria gerenciar melhor minha imagem, ao que respondo com uma solene gargalhada. Esforços neste sentido seriam inúteis, pois só te conhece a fundo, quem come um tantão de sal contigo. Então sigo sendo quem sou. Voltando ao tema... não vejo sentido em mencionar as coisas muito, muito feias, porque uma lista de coisas feias que já fiz não serviria para nenhum bom propósito. Não edifica. Eventualmente, vejo alguns testemunhos investindo horas na descrição da desgraceira que era sua vida antes, para em 30 segundos falar, sucintamente, um “mas Jesus me salvou e agora eu sou próspero”. Como ouvi certa vez, testemunho bom de contar é o de ter vivido uma vida sempre correta.
Não sei se nos meus piores momentos eu fui tão fundo como o FILHO PRÓDIGO, mencionado na parábola do texto de abertura. Talvez eu tenha feito coisas tão terríveis quanto ele, desperdiçado tempo e recursos, saúde, virtude. Talvez eu tenha me colocado, pouco a pouco, sem perceber, em situações parecidas com o chiqueiro de porcos onde ele se encontrava quando caiu em si. Um fundo de poço. Fedor. Humilhação. A chacota de todos. “Olha lá aquele judeu em meio aos porcos. E nem suas bolotas ele pode comer”. Talvez essas fossem as afrontas que ele caladamente tinha que ouvir dos estrangeiros na tal terra distante. Aliás, este é o ponto central desta conversa, que chega finalmente à minha 10ª regra do Pequeno Decálogo de um Cara Sistemático: Sempre na Casa do Pai.
SEMPRE NA CASA DO PAI significa que nunca, em toda a minha vida, eu me afastei dos Àtrios do Senhor. Alguns usariam a palavra igreja; que é diferente de Igreja (com “i” maiúsculo), outra diferenciação que abordaremos em textos futuros. Outros preferem a palavra Templo. O que quer que você escolha, o que importa dizer é que mesmo nos meus piores dias, nos chiqueiros da vida, eu jamais deixei de congregar. Por alguma razão, lá no fundo, eu sabia que se chegasse a tal ponto, seria a pior decisão possível. Não bastassem os erros, pecados e iniquidades, que por si só já eram terríveis, eu sabia que o afastar-me da Casa do Pai seria mais um passo na direção errada. Então eu permanecia. Eu ia, reunião após reunião, mesmo com as sujeiras e os fedores da vida de chiqueiro, mas eu ia.
Hipocrisia? Sepulcro caiado? Talvez. Se em momentos assim eu parecia estar em ordem, aos olhos das pessoas, mas terrivelmente sujo, como eu e Deus bem sabíamos, Ele soube, sabe e sempre saberá me tratar quanto a isso. Mas eu ia. Não para parecer o que eu não era, mas porque eu tinha a consciência de que se havia um lugar certo para um pobre, fracassado e terrível pecador estar, era na Casa do Pai. Afinal, Jesus veio para os doentes deste mundo. E eu nunca me esquecia disto. Eu não caí no sofisma de imaginar que “eu estou terrivelmente mal, então o certo é eu não ir; quando eu der uma arrumada nas coisas, volto”. Mérito próprio. Justiça própria. Obras mortas. Nada do que eu planejasse fazer por mim mesmo para me tornar limpo ou apresentável seria suficiente. Assim como o filho pródigo, eu sabia que precisava me lançar nos braços do Pai como estava, sujo e maltrapilho. A diferença é que o rapaz da parábola estava muito, muito longe de casa. Diferentemente dele, eu nunca me permiti este erro adicional. Errado e inapropriado, como estava, eu permanecia perto, ainda que com o relacionamento quebrado. No fundo, eu sabia que o caminho de volta seria mais curto. Se fiz certo, não sei. Só sei que foi assim.
E quantas e quantas vezes, justamente por ter me mantido perto, o processo de arrependimento foi abreviado. Um louvor me tocou. Uma palavra me confrontou. Um abraço de irmãos e irmãs que me amam, foram os braços do próprio Deus em mim, personificando aquele Pai Amoroso: “E, levantando-se, foi para seu pai; e, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou”. (Lucas 15:20)
Aqueles beijos e abraços que recebi na Casa do Pai, dados por meus irmãos e irmãs, em nome dele, num cara sujo e maltrapilho como eu me encontrei tantas vezes, faziam-me lembrar desse texto. Aquele pai, no reencontro, não olhou para as roupas esfarrapadas do filho. Não tapou o nariz para negar a existência do fedor terrível. Não passou um sermão para, somente depois, admiti-lo. Não. O Pai Amoroso foi apenas o que sabia ser: UM DEUS DE AMOR. Para ele, só importava que aquele filho estava morto, e reviveu, estava perdido, e foi achado (Lucas 15:32).
Eu nunca me afastei da Casa do Pai. Meu desejo é jamais me afastar. Mais que isso, meu desejo é estar perto e limpo, com roupas boas e novas, anel de honra nos dedos, sandálias nos pés, e um bezerro cevado no banquete. É assim que meu Pai me quer, e a realização deste quadro depende diretamente das minhas escolhas. Porque a parte dEle está feita, cabendo a mim corresponder. Um dia após o outro. Escolha após escolha. A única forma possível de se viver. Cada dia com suas lutas. Hoje tive um pequeno erro. Arrependi-me. Farei diferente. Ele vai se alegrar por mais esta pequena lapidação no meu caráter.
Mas se algum dia, por qualquer razão, eu me vir sujo e inabilitado de novo, enveredando por caminhos de iniquidade, não quero ir longe. Preciso estar perto. Para que o arrependimento não tarde; para que um novo banho não demore; e aqueles beijos e abraços do meu Pai me encontrem o quanto antes.
O amor de Cristo nos constrange... Deus é lindo demais!
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