Tenha um plano
Siga o plano
Faça tudo para executar o plano
Se for necessário, adapte o plano
Se tudo der errado, recorra ao plano B
Eu tenho uma tendência natural para dizer SIM. Estou ali tocando a vida, fazendo minhas coisas, quando de repente alguém me pede algo. Sei lá por qual razão, isso acontece muito. Talvez porque as pessoas achem que sei das coisas, ou pareço ser estudioso (já fui bem mais), então me procuram. “Fer, você poderia revisar um texto pra mim?”; “Fer, tô pensando em abrir um negócio. Você me ajudaria a montar um plano?”; e por aí vai... os exemplos seriam muitos.
Hoje até consigo não dizer “sim” na hora, de forma irrefletida, mas a chance de eu ajudar é sempre muito, muito maior do que de dizer “não”. Às vezes até não posso mesmo, mas acabo ajudando, ainda que sem a intensidade ideal. Gosto de fazer tudo com excelência. Em outros tempos, quando eu dizia “sim” para tudo, na hora, isso acabava me atrapalhando um pouco, pois o acúmulo de coisas se transformava num problema. Até que chegou um momento em que comecei a desmarcar ou retroceder nalguns compromissos que eu havia assumido, e comecei a ficar com fama de “furão”, o cara que fala que vai, mas na última hora não vai. Isso me incomodou, pois na essência eu sou uma pessoa confiável, pontual e faço o que digo que farei. Então comecei a pensar melhor antes de responder “sim, conte comigo nisto que você precisa”. Afinal, um eventual “não” é muito mais bem assimilado, do que um “sim”, seguido pouco tempo depois por um “então, veja bem, não terei mais como te ajudar”.
A Palavra de Deus nos orienta a calcular bem antes de entrar num projeto, nestes exatos termos: “Qual de vocês, se quiser construir uma torre, primeiro não se assenta e calcula o preço, para ver se tem dinheiro suficiente para completá-la? Pois, se lançar o alicerce e não for capaz de terminá-la, todos os que a virem rirão dele, dizendo: 'Este homem começou a construir e não foi capaz de terminar'”. (Lucas 14:28-30)
Feita esta pequena introdução, e dizendo que hoje, felizmente, consigo administrar melhor meu “ímpeto para o sim”, vou contar como consegui fazê-lo. Muito do que hoje faz parte daquilo que se pode chamar “minha filosofia de vida”, ou “minhas regras”, ou uma pequena porção disso tudo que resolvi compartilhar neste “Pequeno Decálogo de um Cara Sistemático”, são coisas que fui pensando ao longo da minha vida, somadas com recortes de leituras, experiências, observações do que acontece com outras pessoas. Vai surgindo uma impressão no íntimo – a primeira camada –, que leva à próxima, e à seguinte, até finalmente eu encontrar a pequeníssima boneca russa, ou o miolo da cebola. Não foram sacadas prontas, toques de genialidade. Essas regras são fruto de uma vida inteira, construções por vezes demoradas e complexas.
Nesta questão do saber filtrar melhor os compromissos que assumo, a ferramenta que encontrei foi desenvolver um gatilho, um lugar onde me apegar: “SIGA O PLANO”, pensei. Pintava uma abordagem daquelas que falei no início (“Fer, você poderia me ajudar em tal coisa?”), e eu logo começava a repetir para mim mesmo: “Siga o plano. Siga o plano”. Então, educadamente, ainda que com dificuldade, conseguia dizer “não” para a solicitação, e tudo ficava de boa. A pessoa não se chateava. Assim passei de um extremo ao outro: do cara sempre solícito, para o cara que quase sempre dizia “não”. Este novo extremo também não era bom. Aliás, no geral os extremos não são.
Veio um incômodo por tantos “nãos”, e novamente na Palavra eu encontrei algo que me fez pensar: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado”. (Tiago 4:17). Eu: “Caraca! Então seu eu poderia fazer algo para ajudar alguém – o que pode ser entendido como um bem –, e deliberadamente escolho não fazer, quando posso fazê-lo, isso pode se constituir num pecado?!”. Veio então mais que um incômodo, mas também um peso. Bem, para aqueles que não acreditam pecado, ou que não creem na Bíblia, isso que estou falando não passa de auto-condenação desnecessária. Mas, para mim, que nela creio totalmente, tudo isto é muito sério.
Equilíbrio, claro. Nem a insensatez de dizer “sim” para tudo, sabendo que não tenho condições para dar conta. Nem o egoísmo de fazer só o que me apraz, deixando de ajudar aos que precisam, quando posso. Assim, aquele “siga o plano” passou a ser melhor administrado, mais no sentido de seguir meu planejamento inicial, minha agenda própria, como prioritária, mas conseguindo ser também generoso e solícito para todos que me procuram, sempre que isto for possível. Afinal, é bom fazer algo pelos outros e “há maior felicidade em dar do que em receber” (Atos 20:35).
Como sou de pensar muito, notei que o tal “siga o plano” parecia necessitar de alguma elaboração. Circulando de moto, pensando na vida, fui bolando incrementos. “Bem, antes de seguir um plano, é preciso ter um”. Essa seria a base de tudo, mais ou menos naquela velha e manjada ideia de que para um barco sem rumo, qualquer vento é favorável. Então, ter um plano é essencial. Segui-lo é o passo seguinte, natural, pois ter um plano para não segui-lo, não faz sentido. Segui-lo de qualquer forma, desleixadamente, “se der, deu; se não der, tá ok”...também não dá, né. É necessário empenho, foco, determinação. Uai, se você se deu ao trabalho de elaborar um bom plano e se dispôs a segui-lo, então o certo é fazer bem feito. Daí aquele terceiro item: Faça tudo para executar o plano.
Então chegamos aos elementos finais daquele versinho. O penúltimo (Se for necessário, adapte o plano) nos fala sobre adaptabilidade. Ótimo ser determinado, mas há que se atentar para momentos em que mesmo um bom plano e todos os seus esforços para fazê-lo acontecer, encontram um limite. Limite que pode ser de várias naturezas – não entraremos em detalhes – e se eles forem instransponíveis, pode até parecer nobre e heroico insistir, insistir e insistir no plano original, mas não será efetivo. Então você se adapta, parte para um ganha-ganha, onde vale mais conseguir, digamos, 60%, 70% do que pretendia originalmente, fazendo algumas concessões, do quer fechar-se na meta original 100% e acabar sem nada. Adaptar é vital!
E por fim, o paraquedas reserva. A corda de segurança. Tem que ter UM PLANO B. Sem ele, o risco é grande demais. Mais ou menos como aquele velho princípio de investimento, muito apregoado: não coloque todos os ovos numa única cesta, porque se quebrar, você fica sem nenhum. Isto vale para tantas coisas na vida, que daria uma grande sequência de parágrafos os exemplos possíveis. Pinçarei um, que observei nas vidas de muitas pessoas: “Eu quero aquela vaga! Ela é minha. Não paro enquanto não chegar lá!”. Sangue nos olhos. Apostilas e livros comprados. Agenda de estudos organizada e... bunda na cadeira. Estudar, estudar, estudar. Eu sei o que é isso. Eu já estudei muito. Hoje, olhando para trás, nem sei como eu dava conta de tanto tempo estudando. Não apenas tempo, mas muito estudo de qualidade. Os resultados vieram, felizmente. Eu tinha um plano B? Jovem e sem esta compreensão que tenho hoje, digo sinceramente que não. E se a vaga não tivesse chegado para mim? E se a aprovação no concurso não tivesse rolado? Como e onde eu estaria hoje? Aliás, mais do que não ter um plano B, eu sequer tinha um plano A devidamente elaborado, o que seja talvez mais perigoso. Eu tinha outros daqueles elementos do versinho, especialmente empenho e adaptabilildade, mas tudo foi muito caótico na fase inicial da minha vida. Graças a Deus, as coisas se encaixaram. Mas, se não tivessem encaixado, como e onde eu estaria hoje? Jamais saberei. Para mim, que sou quase um senhor, pensar muito sobre isso não tem grande finalidade. Mas se você é jovem e tem muito por definir na sua vida, vale pensar.
O que quero dizer com esta 9ª regra do meu decálogo, não é que a vida precise ser planejada por completo, algo praticamente impossível. Mas há que haver um planejamento mínimo; ao que se segue a atitude de seguir este plano com empenho e determinação; e que é muito importante ter flexibilidade para fazer os ajustes necessários, e sabedoria para entender quando aquela ideia inicial chegou ao limite; para, enfim, se tudo deter errado, você inteligentemente socorrer-se do importantíssimo PLANO B. Paraquedas reserva, sem o qual você se esborrachará no chão.
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