O trabalho rolava normal naquela tarde – ou seja, muitas coisas por fazer -, quando de repente o colega Roberto me chama: “Fer, vem comigo para uma reunião. Coisa importante!”. Pegamos uns papeis e bora levar o paletó para passear pelo prédio do Conselho Nacional de Justiça. Brasília, idos de 2009. Fomos a uma área onde eu nunca tinha estado, vários corredores, vira à direita, à esquerda, um lance de escada, mais corredores, então chegamos. No percurso ele foi me explicando que era algum assunto com uma pessoa da Embaixada dos Estados Unidos, que nos procurara. Vínhamos realizando um projeto importante, relacionado ao sistema prisional, por isso muita gente nos procurava. O Roberto disse que pela minha experiência numa determinada parte da coisa toda, eu certamente contribuiria muito na reunião. Ao chegarmos à porta da sala, instantes antes de entrar, ele me pergunta (acredito que em tom de brincadeira): “E aí, como está seu Inglês?”.
Eu não falo Inglês hoje (2021). Também não falava em 2009. Nunca falei. Sou filho de um professor de Língua Inglesa. Não nasci ou cresci no mato, ou nalguma comunidade isolada nos rincões do Brasil. Pelo contrário. Nasci e me criei no Paraná, Estado com IDH elevado, famoso – acho que hoje nem tanto – pelo excelente ensino público nos anos 80/90, quando eu estava nos bancos escolares. Havia livros em casa. Havia comida em casa. Eu não aprendi Inglês porque não quis. Acho que mais por preguiça do que por dificuldade, embora houvesse alguma preguiça e dificuldade. Simplesmente não entrava na cabeça. Então joguei a toalha. E hoje, ainda hoje, sustento a versão de que escolhi conscientemente não aprender inglês.
Por outro lado, na Língua Portuguesa eu voava. Quanto maior a complexidade – e a LP é cheia delas – ,mais eu gostava de estudar. Não ao ponto de decorar as regras ininteligíveis, que meu pai, também professor de Português, adora mostrar que sabe. Ele acha que eu também sei, mas a realidade é que eu aprendi um Português prático, lapidado na leitura e na escrita, e (claro) nalgum estudo das boas e velhas Gramáticas. Houve épocas em que eu colocava 10 delas sobre a mesa, para estudar um mesmo tópico – sintaxe, por exemplo – sob a compreensão de 10 autores diferentes, com seus exemplos, exceções, diagramas e sistemas. Aprendi muita coisa. Meu Português não é perfeito, claro – como estes meus escritos deixam claro – mas dá pro gasto.
Eu via meus colegas de escola fazendo curso de Inglês no Fisk, CCAA, Cultura Inglesa, para somente conseguirem ir bem nas provas da escola, mas nenhum deles falava de verdade na língua estrangeira. Frases decoradas, quando muito. O suficiente para se localizar ou não passar fome numa viagem para o exterior, mas nem de longe com a fluência necessária para manter uma conversação interessante com um gringo. Essa constatação me deixava mais tranquilo com o fato de ter decidido não aprender Inglês, pois eu imaginava que teria acontecido exatamente o mesmo comigo, perdendo meu tempo com aulas e mais aulas nos cursos, para no final não conseguir falar. Por outro lado, minha escolha em dedicar-me exclusivamente ao Português rendia frutos, pois minha redação e comunicação melhoravam mais e mais.
Comecei a acreditar que a Língua Inglesa jamais me faria falta. Na verdade, fez apenas uma vez. E não, não foi na reunião com o cara da Embaixada no CNJ, em 2009. Catorze anos antes eu estava no meu primeiro namoro. O plano era passar em Direito numa excelente faculdade do interior de São Paulo, cursar e depois casar. Aqueles planos típicos dos 17 anos de idade. Eu estava voando nos estudos, aluno excepcional... menos no Inglês. E havia um detalhe importante: naquela Universidade só havia uma opção de língua estrangeira. Eu não contava com isso. No cursinho preparatório eu fiquei com o Espanhol, que àquela altura eu falava com certa fluência.
Então veio a prova. Dez questões de Inglês. Errei todas.
Minha namorada, que tinha feito lá seus cursos – Fisk, CCAA ou Cultura Inglesa, não lembro – mas, diferentemente dos meus amigos, realmente havia aprendido, quando viu as questões que eu errei... Era tudo muito básico. Eu havia ido muito, muito bem em todas as demais disciplinas do vestibular, mas o “zero” em Inglês acabava com tudo. Pelos regras do processo seletivo, zerar era sinônimo de desclassificação, por mais que em todas as outras você tirasse 10. Em Português, lembro-me que acertei todas. Seguiu-se uma decepção pelo fracasso, a perspectiva de mais uns anos morando longe – nosso namoro de 2 anos, até então, havia sido todo à distância – e não demorou muito para rompermos. Eu rompi, na verdade. Passei em Direito na UEM e vim para Maringá. Vinte e Cinco anos atrás. Tudo pela frente.
A vez que o Inglês me faltou, portanto, parece ter mudado drasticamente meus caminhos. Um exercício de imaginação – do tipo “efeito borboleta” – me levaria a quais caminhos, se eu tivesse passado naquela prova na Unesp? Teria eu me casado com a primeira namorada? Se sim, possivelmente hoje eu teria filhos, alguns já bem grandes e caminhando para o casamento. Não é exagero, não. Recentemente um amigo que tem exatamente a minha idade casou a filha mais velha. Não fico pensando nisso. Apenas um exercício de imaginação. Quem escreve, costuma fazer essas coisas.
A cara de espanto do Roberto quando eu respondi que não falava Inglês foi muito engraçada. Nós entrando na sala, o cara da Embaixada já se levantando e nos cumprimentando, e meu colega tipo “Tá, você não é fluente, mas você sabe o básico, né?!”. Eu “não, nada, nada, nada”, rindo. O Roberto apavorado. O cara nos cumprimentou, em Inglês, e eu ia repetindo o que o Roberto falava. Ele, totalmente fluente, havia morado em Nova Iorque por uns anos, cara mega capacitado. E eu lá, um boçal no Inglês, e um avião em outras áreas. A reunião aconteceu. Eu tenho algum vocabulário na fala do Tio Sam, então acabava pegando o sentido da conversa. Só não sabia responder. Roberto ficava com essa parte. Ele suava. Olhava pra mim e balançava a cabeça num sinal de negativo, como de disse sem palavras “Como assim você não fala Inglês? Você é o assessor top dos tops do CNJ, está em todos os projetos, dá jeito pra tudo. Você tem que saber falar Inglês!”. E eu rindo, rindo muito.
Não foi apenas a Língua Inglesa que eu conscientemente decidi não aprender. Houve outras habilidades que não quis pra mim. Fiz apenas uma Especialização, e depois de vários anos de formado na graduação em Direito. Não quis Mestrado. Doutorado, nem pensar. Não porque eu despreze o conhecimento. Pelo contrário. Tenho muito apreço por ele, e quem me conhece o sabe muito bem. O caso é que nunca me apeguei a títulos, diplomas, ou coisas semelhantes. Importa-me mais o saber. Há também quem saiba muito e tenha os seus títulos na parede. Nenhum problema. Parabéns. Mas eu não quis nada além do básico na minha parede. Meio espartano.
Por outro lado, CONHECIMENTO e a SABEDORIA foram “diplomas da vida”, que sempre busquei diligentemente. Sempre. Sou curioso. Leio de tudo. Estudo por conta qualquer coisa que me chame a atenção. Só que isso não dá papelzinho na parede. Tranquilo. Pra mim não precisa.
A minha 8ª regra do Pequeno Decálogo de um Cara Sistemático consiste em “MAIS SABEDORIA, MENOS TÍTULOS”. Enfatizo: não está escrito ali “nenhum título”. Formação é importante. Diplomas. Cursos. Capacitações. Penso que todos devem buscar. Eu busquei os que eu quis, os que faziam sentido pra mim. Não me sinto menor do que os colegas que fizeram suas 3 ou 4 especializações, Mestrado, e são fluentes em 2 ou 3 línguas estrangeiras. Foram as escolhas deles. Não estamos numa corrida ou algum tipo de ranking de inteligência, cuja medição se dê por contagem de provas e títulos. Eu escolhi buscar o conhecimento pelo genuíno amor a ele, e a Sabedoria porque não tem como desprezá-la. Infelizmente, falta tanto dela hoje em dia. Tanta gente amontoada de títulos sobre si, mas com falta crônica de sabedoria nas horas dramáticas da vida.
Eu provavelmente não estudarei Inglês na segunda metade da minha vida. O vocabulário básico é suficiente para que eu me vire. Para mim, está de bom tamanho. Língua Portuguesa, ainda hoje eu estudo. Não mais com 10 gramáticas diferentes sobre a mesa. O bom e velho Manual de Redação Jurídica, do Professor José Maria da Costa, é mais do que suficiente para eu me ocupar por longos anos. Aliás, é o melhor livro que conheci até hoje para estudo na nossa língua nativa. Fica a dica. Conhecimento, este eu não deixo de buscar. Livros e mais livros, estudo, reflexões. Sabedoria... penso já ter alguma, e claro que desejo ter mais. A segunda metade da vida é um momento em que começamos a dar sinais de tê-la alcançado. Os cabelos brancos e o somar dos anos tem a ver com isto. Não para todos. Seu alcance não é a culminação natural e inexorável da vida humana. Mas para os que a buscam diligentemente, ela se deixa encontrar.
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