Na 7ª regra do Pequeno Decálogo de um Cara Sistemático, vou pular toda a enrolação e irei direto ao ponto: APENAS UM DOCE POR DIA. Literal. Simples assim. Sem interpretações. Comer apenas um. The end!
Regra que eu quebro todos os dias.
Regra que eu criei sabendo que iria quebrar, mas ainda assim existe uma razão importante para continuar existindo.
Estou a poucos dias de completar 44 anos de vida. Tirando a calvície mais acentuada de uns tempos para cá, que começou a me incomodar, te digo que nenhum outro aspecto do meu corpo me incomoda. Altura legal. Peso que nunca varia. Nem feio e nem bonito (embora minha mãe me ache lindo, só que opinião de mãe né...). As marcas de expressão no rosto são naturais, fazem parte. Os primeiros fios brancos – dentre os sobreviventes – muito me alegram. Não tenho nenhuma doença. Durmo bem, embora menos do que algum tempo atrás. O espelho não é inimigo, e talvez por isso – além da função de ampliarem a casa – eu tenha tantos no apartamento. Tudo funciona! Este o significado de um corpo FUNCIONAL. Sou grato a Deus por ele, e sei também que muito disso é colheita de uma vida toda de disciplina em atividades físicas, boa alimentação e ausência de vícios ou excessos. A Lei da Semeadura: lancei boas sementes nessa área, hoje colho bons frutos.
Do parágrafo anterior, quero destacar a palavra DISCIPLINA. Mais do que um cara sistemático, vejo-me como um homem disciplinado. O sistemático tem mais a ver com “regras pelas regras”. O disciplinado liga-se a “regras para um objetivo ou propósito”. Ainda essa semana, conversando com uma amiga, ela me perguntava se os itens na minha agenda semanal são inegociáveis. Se é tudo tão rígido quanto parece. É que eu havia comentado que costumo cumprir, toda semana, uns 90% dos itens nela constantes. Ao que respondi que não, em absoluto são inegociáveis. Senão a vida seria muito chata. Chata como chato já fui, nos tempos em que a agenda era inegociável. Nos tempos das regras pelas regras e um perfeccionismo sem sentido. Hoje eu cumpro facilmente minha agenda, porque ela foi sendo ajustada, aprimorada, e continuará sendo de tempos em tempos. GESTÃO DE TEMPO é um processo permanente.
A rigidez do sistemático perfeccionista foi dando lugar à leveza do disciplinado em busca de excelência. Esta nova perspectiva mudou tudo. Se antes eu anotava num papelzinho cada mínimo centavo gasto, para depois lançar numa planilha de controle, hoje tenho uma estrutura de gestão financeira simples e descomplicada, que funciona melhor e me rouba menos tempo. Se antes eu tinha metas diárias, semanais, mensais e anuais de páginas para leitura, hoje eu deixo rolar a delícia de ler menos, com muito mais sabor e entendimento, com zero-meta de performance nesta área. Caiu a ficha de que gabar-me por ler 52 livros por ano só passava uma imagem soberba, pedante, e essa montoeira de páginas não me tornava mais legal. E a lista de coisas que migraram do sistemático para o excelente seguiria longa e muito boa, mas você já entendeu. EXCELÊNCIA, eis uma chave importante que o texto 14 propõe-se a te fazer pensar.
Pois bem. Então nesse contexto de mudança de paradigma, que tem rolado mais ou menos a partir dos meus 40, em certo momento eu busquei orientação de uma nutricionista. Thayane. Amiga minha. Estudiosa. Dedicadíssima à profissão que abraçou. E radical, beeem radical no prato, rs. A ela dedico este escrito.
Como eu vinha começando a colher bons resultados no ciclismo, e sabia que a lição de casa estava em dia nos quesitos treinamento com bike, acompanhamento médico, e atividades físicas complementares, faltava fechar a rotina de atleta com uma boa orientação nutricional. Fui até lá imaginando passar por uma ou duas consultas, confirmar que a imensa maioria dos meus hábitos alimentares era boa, fazer uns ajustes pontuais e logo concluir. Sim, uma boa parte dos tais hábitos recebeu OK, mas não, a jornada de acompanhamento não foi tão curta. Ela prossegue. Ainda é necessária. Eu e a nutri sabemos ainda há coisas por melhorar, mesmo com 10% de gordura corporal (a parte soberba e pedante migrou dos livros para o prato rs).
Algo que eu sabia ser um problema, era/é meu gosto por doces. Honesto em todas as minhas colocações com ela, num pacto não verbalizado de transparência, jamais escondi isso. “Eu gosto de doces e continuarei a comê-los, Thay”. Também não deixei de consumir leite, o que sempre rende umas franzidas de testa do lado de lá da mesa. Fomos nos conhecendo no processo, na relação profissional-paciente, e encontrando um caminho. Sequer tenho cardápio. Escolhemos seguir pilares e princípios nutricionais, porque mais simples. Eu não me veria – como não me vejo – contando calorias e pesando alimentos na hora de comer. O fato de eu não engordar por nada, ajuda muito. É um acompanhamento diferentão. Uma hora agradabilíssima em nossas agendas, que temos a cada 2 ou 3 meses. Rimos muito e sinto que aprendemos e ensinamos muito um para o outro.
Vez por outra eu posto uma bobagem qualquer que comi, marcando minha nutricionista no Instagram. Ela adora, rs. Quando então eu falo: “Você sabe que eu não escondo nada. Minha vida é uma bandeja de Mc Donald´s aberta”. Não, eu nunca disse exatamente com essas palavras, mas soou legal, então faz de conta que eu falo assim. Uma licença poética. Afinal, isso aqui é alguma forma de literatura. Podemos florear um bocadinho. Aí rola uma rápida conversa e ela se certifica de que não chutei o balde. Foi apenas um ponto fora da curva, que fiz questão de deixa-la saber, só para descontrair. Como ela espera, e como eu sei ser o melhor pra mim, vou mantendo a boa disciplina alimentar. Porque importam mesmo os 90% ou mais de refeições que fiz com excelente qualidade, e não os 10% ou menos (bem menos) em que me permiti uma pequena extravagância.
Eu como doces todos os dias. A nutri sabe. Mas consumo os tipos menos piores, e nas horas menos piores. Fosse eu o sistemático perfeccionista de antes, sem chance! Não comeria nada fora do prescrito. Mas hoje, num trilho de disciplina e excelência, eu me permito ter uma regra para quebrar quase todos os dias. Eu deveria (deveria?) comer apenas um, mas normalmente como dois. Quando muito, três. Sem culpa. Sem o gosto amargo de algum peso na consciência. Sei que fiz a lição de casa no prato, no sono, nas muitas atividades físicas, no controle do estresse, e em tudo mais que compõe um bom SISTEMA DE VIDA SAUDÁVEL. Então, um quadradinho a mais da barra de chocolate cacau 70% não vai comprometer seriamente todo o mais que fiz certo.
Normalmente a barra leva mais de uma semana para sumir... para orgulho da nutri.
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