segunda-feira, 29 de março de 2021

002 LET´S DANCE!

Já dizia Mano Brown que “o barato é louco e o processo é lento”.

Em meados de 1985, quando contava 8 anos de idade, eu descobri que era tímido. Rolava uma festa de aniversário, certamente de algum colega da escola, numa casa localizada na Rua Ouro Verde, mais especificamente no trecho que fica entre a Rua Humaitá e a Avenida Mato Grosso (lado direito, sentido centro-bairro), em Cianorte/PR. Esse é o tipo de lembrança que me deixa perplexo com minha memória: o quanto ela é horrível para quase tudo, mas incrível para lembranças emocionais e remotas. Ou você conhece mais alguém que sabe te indicar ano, contexto e endereço completo de quando se descobriu tímido?

Uma festinha típica de crianças dos anos 80. Nos meus aniversários de então, bem como nos dos meus amigos da igreja, tudo era semelhante àquele, a não ser por um pequeno detalhe: o bailinho no final. Ali o “barato ficou louco”. Depois dos presentes entregues, salgadinhos e doces, “Parabéns pra você”, assopro nas velinhas, etc, começou uma movimentação diferente na garagem. Adultos tirando as mesas do meio, abrindo espaço e tal, começam a tocar umas músicas que eu não conhecia, e enfim os primeiros casais se encaminham para o meio do salão. Casais dançando. Um cena que eu nunca tinha presenciado.

Como fosse algo novo pra mim, fiquei de boa no meu canto, só observando a movimentação. Notei que os casais não brotavam no centro da pista, como que por mágica. Algo precedia à dança em si: o simples, muito simples, simplíssimo ato de aproximar-se de uma garota e convidá-la para ir com você. Simples, e extraordinariamente difícil para mim. Olhando meus colegas de escola fazerem isso, pareceu fácil. Mas quando chegou minha vez, descobri naquela noite o poder da timidez. Travei. Gelei. Não fui.

Seu nome era Isa. Uma garota do 2º ano primário do Colégio Cianortense. Eu sabia que ela gostava de mim, o que quer que isso significasse para duas crianças de 8 anos. Ela sempre falava comigo nos intervalos na escola, participávamos das brincadeiras no pátio, tudo bem legal. A escola promovia diversas atividades, como festas juninas, jograis, apresentações cívicas, danças folclóricas. Eu participava de tudo com desenvoltura e interesse. Minha mãe, que trabalhava naquele colégio, incentivava bastante. Ou seja, eu não era tímido. Bem, ao menos até ali eu não experimentara a sensação da timidez paralisante.

Não fui. Isa ficou me olhando do outro lado da pista, esperando. Era aquele típico quadro dos filmes da Sessão da Tarde: meninos num lado do salão, meninas do outro; eles atravessavam o salão, estendiam uma das mãos e aguardavam que a garota aceitasse. Se tudo corresse como planejado, a mágica acontecia: um novo casal se formava. Iam de mãos dadas até o meio, aproximavam-se e dançavam. Simples e bonito. Não teria como dar errado.

As sensações que experimentei naqueles instantes - talvez 1 hora -, entre o primeiro sorriso da Isa (quando o bailinho estava começando) e a hora de ir embora (sem ter dançado com ela ou mais ninguém), foram bem intensas no meu íntimo. A que mais se destaca foi dor de barriga. Além de bochechas vermelhas, “suadô”, risadeira dos amigos por você ter travado, e muito mais. Um dos adultos levou uma vassoura, falando que quem não tirasse nenhuma menina pra dançar, teria que ir com a vassoura. Maldade rs. Fui embora triste. Eu senti muita vontade de dançar naquela noite de 1985, com a menina linda da escola, de quem eu gostava e que gostava de mim. Claro que ela teria ido comigo. Claro que teria sido mágico dançar ao som de “I Want to Know What Love Is”. Teríamos nos amado pra sempre, fugido com 16 anos, casado e vivido uma vida cheia de aventuras.

Não, não. Na verdade, apenas uma noite muito legal na vida de duas crianças. Descobertas gostosas e inocentes. Necessárias. Só que no lugar da lembrança feliz, restou uma triste. Muito triste pra mim, porque a certa altura a Isa foi tirada para dançar por outro menino. Eu ali perto, vendo tudo – travado, gelado e não indo –, com raiva do carinha, com raiva de mim mesmo por não ter dançado com a minha garota. Foi uma noite inesquecível, com suas novas e terríveis sensações. O barato foi louco.

Passadas aproximadamente 3 décadas e meia, pouca coisa mudou. Em essência, quase nada. A timidez, no íntimo, é basicamente a mesma de 1985. Na fase adulta, tirei muitas moças pra dançar, com olhar confiante, sorriso estampado, mãos firmes... só que tudo precedido da mesma dor de barriga. Elas jamais imaginaram as dificuldades que precisei vencer para fazer a coisa acontecer. Nas vezes que venci e cheguei com elas ao centro da pista, bingo! Tudo resolvido! A partir dali eu sabia muito bem o que fazer, e a timidez magicamente não afetava mais nada. Ah, muita gente não sabe que eu sei dançar, e bem (mesmo com essa cara de nerd).

Certa vez li que o passar dos anos faz com que nossas características fundamentais se aprofundem, cristalizem. Tornamo-nos ainda mais quem somos. Algo verificado em pesquisas e tal. Em contrapartida, há quem diga que com o tempo as pessoas mudam. Se confirmada esta hipótese, o garoto tímido caminharia naturalmente para a desenvoltura. Só que não! Pelo menos pra mim, o que rolou foi a confirmação da primeira hipótese, aquela das pesquisas. Minha timidez permaneceu, consolidou-se. Felizmente, descobri meios de lidar com ela e driblá-la, fazendo cara, voz e postura confiantes. Tudo fake, galera! Por dentro é sempre tenso.

Jamais saberei se “I Want to Know What Love Is” tornou-se uma das músicas que mais gosto, por causa daquele fatídico dia de 1985. Provavelmente, não. Gosto de pensar que sim. E se é verdade que os brutos também amam, te garanto que os tímidos também dançam. Mas o processo é lento.

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