Já dizia Mano Brown que “o barato é louco e o processo é lento”.
Em meados de 1985, quando contava 8 anos de idade, eu descobri
que era tímido. Rolava uma festa de aniversário, certamente de algum colega da
escola, numa casa localizada na Rua Ouro Verde, mais especificamente no trecho
que fica entre a Rua Humaitá e a Avenida Mato Grosso (lado direito, sentido
centro-bairro), em Cianorte/PR. Esse é o tipo de lembrança que me deixa perplexo
com minha memória: o quanto ela é horrível para quase tudo, mas incrível para lembranças
emocionais e remotas. Ou você conhece mais alguém que sabe te indicar ano,
contexto e endereço completo de quando se descobriu tímido?
Uma festinha típica de crianças dos anos 80. Nos meus
aniversários de então, bem como nos dos meus amigos da igreja, tudo era semelhante
àquele, a não ser por um pequeno detalhe: o bailinho no final. Ali o “barato
ficou louco”. Depois dos presentes entregues, salgadinhos e doces, “Parabéns
pra você”, assopro nas velinhas, etc, começou uma movimentação diferente na garagem.
Adultos tirando as mesas do meio, abrindo espaço e tal, começam a tocar umas músicas
que eu não conhecia, e enfim os primeiros casais se encaminham para o meio do
salão. Casais dançando. Um cena que eu nunca tinha presenciado.
Como fosse algo novo pra mim, fiquei de boa no meu canto, só
observando a movimentação. Notei que os casais não brotavam no centro da pista,
como que por mágica. Algo precedia à dança em si: o simples, muito simples, simplíssimo
ato de aproximar-se de uma garota e convidá-la para ir com você. Simples, e extraordinariamente
difícil para mim. Olhando meus colegas de escola fazerem isso, pareceu fácil.
Mas quando chegou minha vez, descobri naquela noite o poder da timidez. Travei.
Gelei. Não fui.
Seu nome era Isa. Uma garota do 2º ano primário do Colégio
Cianortense. Eu sabia que ela gostava de mim, o que quer que isso significasse
para duas crianças de 8 anos. Ela sempre falava comigo nos intervalos na escola,
participávamos das brincadeiras no pátio, tudo bem legal. A escola promovia
diversas atividades, como festas juninas, jograis, apresentações cívicas,
danças folclóricas. Eu participava de tudo com desenvoltura e interesse. Minha
mãe, que trabalhava naquele colégio, incentivava bastante. Ou seja, eu não era
tímido. Bem, ao menos até ali eu não experimentara a sensação da timidez
paralisante.
Não fui. Isa ficou me olhando do outro lado da pista,
esperando. Era aquele típico quadro dos filmes da Sessão da Tarde: meninos num
lado do salão, meninas do outro; eles atravessavam o salão, estendiam uma das
mãos e aguardavam que a garota aceitasse. Se tudo corresse como planejado, a
mágica acontecia: um novo casal se formava. Iam de mãos dadas até o meio,
aproximavam-se e dançavam. Simples e bonito. Não teria como dar errado.
As sensações que experimentei naqueles instantes - talvez 1
hora -, entre o primeiro sorriso da Isa (quando o bailinho estava começando) e
a hora de ir embora (sem ter dançado com ela ou mais ninguém), foram bem
intensas no meu íntimo. A que mais se destaca foi dor de barriga. Além de
bochechas vermelhas, “suadô”, risadeira dos amigos por você ter travado, e muito
mais. Um dos adultos levou uma vassoura, falando que quem não tirasse nenhuma
menina pra dançar, teria que ir com a vassoura. Maldade rs. Fui embora triste.
Eu senti muita vontade de dançar naquela noite de 1985, com a menina linda da
escola, de quem eu gostava e que gostava de mim. Claro que ela teria ido comigo.
Claro que teria sido mágico dançar ao som de “I Want to Know What Love Is”. Teríamos
nos amado pra sempre, fugido com 16 anos, casado e vivido uma vida cheia de aventuras.
Não, não. Na verdade, apenas uma noite muito legal na vida
de duas crianças. Descobertas gostosas e inocentes. Necessárias. Só que no
lugar da lembrança feliz, restou uma triste. Muito triste pra mim, porque a
certa altura a Isa foi tirada para dançar por outro menino. Eu ali perto, vendo
tudo – travado, gelado e não indo –, com raiva do carinha, com raiva de mim mesmo
por não ter dançado com a minha garota. Foi uma noite inesquecível, com suas
novas e terríveis sensações. O barato foi louco.
Passadas aproximadamente 3 décadas e meia, pouca coisa mudou.
Em essência, quase nada. A timidez, no íntimo, é basicamente a mesma de 1985. Na
fase adulta, tirei muitas moças pra dançar, com olhar confiante, sorriso estampado,
mãos firmes... só que tudo precedido da mesma dor de barriga. Elas jamais
imaginaram as dificuldades que precisei vencer para fazer a coisa acontecer. Nas
vezes que venci e cheguei com elas ao centro da pista, bingo! Tudo resolvido! A
partir dali eu sabia muito bem o que fazer, e a timidez magicamente não afetava
mais nada. Ah, muita gente não sabe que eu sei dançar, e bem (mesmo com essa
cara de nerd).
Certa vez li que o passar dos anos faz com que nossas
características fundamentais se aprofundem, cristalizem. Tornamo-nos ainda mais
quem somos. Algo verificado em pesquisas e tal. Em contrapartida, há quem diga
que com o tempo as pessoas mudam. Se confirmada esta hipótese, o garoto tímido
caminharia naturalmente para a desenvoltura. Só que não! Pelo menos pra mim, o
que rolou foi a confirmação da primeira hipótese, aquela das pesquisas. Minha
timidez permaneceu, consolidou-se. Felizmente, descobri meios de lidar com ela
e driblá-la, fazendo cara, voz e postura confiantes. Tudo fake, galera! Por
dentro é sempre tenso.
Jamais saberei se “I Want to Know What Love Is” tornou-se
uma das músicas que mais gosto, por causa daquele fatídico dia de 1985.
Provavelmente, não. Gosto de pensar que sim. E se é verdade que os brutos também
amam, te garanto que os tímidos também dançam. Mas o processo é lento.
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