- E aí, Fernando! Já fez sua inscrição para o concurso?
- Qual concurso, Dr. Mário?
- O da Justiça Federal. Tem edital aberto.
Ele me passa o Jornal de Concursos – fonte primária deste tipo de informação nos idos de 1999 – e eu começo a ler e buscar maiores detalhes.
- Nossa! As inscrições encerram-se hoje!
- Então corra fazer, pois a Justiça Federal é um excelente local para trabalhar.
- Vi aqui no edital que a taxa de inscrição deve ser paga até o horário de término do atendimento ao público, então preciso correr para lá agora.
- Pode ir. As coisas estão tranquilas aqui no setor. Utilize o tempo que for necessário.
Esse diálogo ocorreu em algum momento do primeiro semestre de 1999, na sala do Departamento Jurídico do Núcleo Regional de Educação de Maringá, onde então eu trabalhava. Encontrava-me então no 3º ano de minha graduação em Direito (UEM). Estava interessado em fazer alguns concursos de nível médio por Maringá e Região. O salário no NRE não era tão bom, o caráter jurídico do que eu fazia ali resumia-se em acompanhar procedimentos administrativos disciplinares e, claro, eu queria o quanto antes me colocar numa nova atividade, mais bem remunerada, e que tivesse um envolvimento maior com o Direito como um todo.
Eu sequer ouvira falar, até aquele dia – ou não tinha prestado muita atenção – sobre a existência da Justiça Federal, e muito menos sabia que em Maringá havia uma Subseção Judiciária em pleno funcionamento. Bem, mas já que tinha um edital aberto e vagas para nível médio, bora lá fazer inscrição. Depois eu acabaria olhando melhor o edital, pesquisaria sobre a JF e tal. Mas naquele momento específico, tudo o que importava era correr para a Agência Centro da Caixa Econômica Federal de Maringá e garantir que eu poderia concorrer a uma vaga.
Três quadrinhas à pé, caminhadas rapidamente no final daquela manhã, e lá estava eu no interior da agência. Fui lendo um pouco mais do edital no trajeto, quando notei uma informação muito, muito importante: havia vagas para 2 cargos de nível médio em Maringá: 1 vaga para Atendente Judiciário; 5 vagas para Técnico Judiciário. Valor da inscrição R$30,00. Localizei a ficha de inscrição e enquanto aguardava minha vez na fila do caixa, fui olhando mais detalhes do edital e preenchendo. Não podia haver erro. Foi quando tomei a decisão que mudou minha vida profissional. Uma decisão sobre em qual daqueles quadradinhos anotar um X, que indicaria para qual cargo eu desejava concorrer.
A escolha natural apontava para as 5 vagas de Técnico, e lembro-me perfeitamente bem de ter aproximado a caneta para anotar, mas de repente ocorreu-me um pensamento: “Acho que todo mundo vai nessas 5 vagas. Certeza que a concorrência será absurdamente grande. Vou naquela única vaguinha de Atendente”. E foi o que fiz. Anotado um X no quadradinho da vaga solitária. Fiz com convicção, imaginando ser uma questão lógica.
Beleza. Ficha de inscrição preenchida, documentos pessoais em mão, e chega a minha vez no caixa. Casualmente, a pessoa que me atendeu era uma conhecida de vista. Não me recordo seu nome, mas perfeitamente de seu rosto. Cabelos curtos e encaracolados. Puxei a carteira para pegar os R$30,00 da inscrição e... adivinha? NADA! Eu não tinha um tostão no bolso. Meu Deus! Lascou! E agora?
Eu olho para a moça, ela percebe a situação, e me diz que se eu fosse correntista da Caixa, era só sacar o dinheiro e tudo certo. Mas eu tinha conta no Banestado. É... pois é... eu sou do tempo do Banestado (risos). Não se esqueçam que sou um jovem senhor, nascido no século passado, em plenos anos 70, quando Elvis ainda era vivo. Uai! Mas ele morreu? Diz-se por aí que ainda está vivo. Bem, se sim ou não, eu não sei, mas quando eu nasci, certeza que ele ainda era vivo. Aí eu digo a ela que não tinha conta na Caixa, e ela me dá a informação mais problemática possível naquele momento tão crítico: “Olha, o horário de atendimento ao público está quase fechado. Se você sair da agência, é praticamente certo que não dará tempo de ir até o outro banco e voltar. Se a porta já estiver fechada, você não poderá entrar”. E era isso mesmo, eu teria no máximo uns 20 minutos para correr até o Banestado. Não era opção.
Muita tensão naquela hora.
Eu olhando para o nada, dando a inscrição como perdida, quando a moça do caixa me saca uma sugestão: “Você não conhece alguém aqui da agência? Poderia emprestar o dinheiro”. E eu quase respondo: “Conheço você, mas só de vista. Me empresta trintão?”. Mas não, eu não fiz isso (risos novamente). E olha, foi justamente a sugestão improvável que abriu uma possibilidade de ainda salvar aquela inscrição. Lembrei-me que um amigo meu, da Faculdade (o Paiva) era gerente naquela agência. Não era um simples colega de sala, mas um amigo mesmo. Fazíamos parte do mesmo grupo de estudos, conversávamos muito, dele recebi muitos e bons conselhos para a vida. Um cara que figurava para mim com um tipo de irmão mais velho.
Falei para a moça sobre esta possibilidade e ela foi muito bacana. Disse-me que como eu estava dentro da agência, tinha ainda a possibilidade de concretizar minha inscrição, mas tinha que ser até a hora de fechamento do caixa, que seria dali mais 1 ou 2 horas (não me lembro ao certo). Ela falou que estaria por ali, provavelmente mais ninguém nas filas, mas que me aguardaria até o máximo que pudesse, com o caixa aberto. E vai o Fer atrás desse Paiva. Ela me indicou mais ou menos onde eu encontraria sua mesa, no segundo andar da agência, e fui para lá. Consegui a informação mais precisa sobre sua mesa com um vigilante da agência. Havia várias mesas de gerentes, lado a lado, e quase todas com seus ocupantes ali no momento, menos uma. Justamente a do Paiva. Falei com um de seus colegas e fui informado de que ele estava no horário de almoço, logo voltaria.
Sentei-me num sofá por ali e dá-lhe esperar. Pelo visto ele havia acabado de sair para comer, pois passa meia-hora, passa 1 hora... e nada. Vai inteirando 1 hora e meia de espera e nada. Começou a parecer tudo perdido de novo. Desci aos caixas, certifiquei-me com a moça que ainda estava em tempo, mas ela precisaria fechar meio logo. Não poderia esperar indefinidamente. Corri lá para cima, para ter a visão da esperança: todas as mesas estavam agora com seus ocupantes. O Paiva tinha voltado do almoço. Ele todo feliz pela visita, querendo prosear e tal, me chamando para tomar um café e tal, e eu tentando acelerar ao máximo o processo das trivialidades cordiais, para ir direto ao ponto. Consegui fazê-lo. Expliquei o mais rapidamente possível todo o contexto, para finalmente fazer a pergunta de ouro: “Cara, você poderia me emprestar R$30,00?”
- Não, Fer. Eu não empresto.
Para emendar:
- Eu te dou estes R$30,00, mas não empresto.
- Não, Paiva. Eu tô pedindo emprestado, te devolvo hoje mesmo na Faculdade.
- Não, Fer. Eu não empresto. Estes R$30,00 eu faço questão de te dar de presente.
- Mas se for assim eu não quero.
- Tudo bem, então vai ficar sem sua inscrição (falou ele rindo alto)
- Poxa, se é assim eu aceito (eu disse rindo ainda mais que ele, agora de alívio).
- Fer, você é meu amigo, cara. Eu faço questão de te dar estes R$30,00. Aceite como um presente meu. E vá lá, conclua sua inscrição e passe neste concurso.
Eu mal sabia como agradecer. Devo ter dado um abraço nele, mas sinceramente não me recordo.
Só sorrisos. Só alegria.
Peguei aqueles 30 pila, desci correndo até aquele último caixa onde ainda havia alguém, e lá se encontrava um anjo de cabelos curtos e encaracolados me aguardando, para finalmente efetivar minha inscrição. Ela me disse que segurou até onde pode, que dali alguns minutos teria mesmo que encerrar, mas felizmente deu tempo. Ficha de inscrição preenchida, documentos pessoais em mão, e os TRINTÃO consumaram a coisa toda. Era já pelo meio da tarde. Eu devo ter ficado umas 3 ou 4 horas dentro daquela agência. Capítulo importante da minha história estava acontecendo ali, naquele específico lugar, naquele curtíssimo espaço de tempo. Efeito Borboleta total. Muita coisa teria sido bem diferente, sem a conjunção de todos aqueles pequenos detalhes.
Saber do concurso no último dia de inscrição.
Anotar o X no quadradinho da vaga isolada de Atendente Judiciário.
Encontrar uma conhecida de vista, que ainda hoje eu suspeito ter sido um anjo colocado por Deus naquele lugar para me ajudar.
Ter um amigo como o Paiva exatamente naquela agência, a única pessoa para quem eu teria coragem de pedir uma grana emprestada, naquele contexto.
E o resto é história.
Fiz a prova. Passei no concurso (Ah, se eu tivesse concorrido às 5 vagas de Técnico Judiciário, não teria entrado). Tomei posse em Curitiba no dia 20 de setembro de 1999. Entrei em exercício como Atendente Judiciário na 2ª Vara Federal de Maringá, prédio na esquina das Avenidas XV de Novembro com Duque de Caxias, no final da manhã do dia 22 de setembro de 1999. Exatos 22 anos atrás. E hoje, que conto 44, posso dizer, LITERALMENTE, que já passei MEIA VIDA a serviço da Justiça Federal. Não é pouca coisa.
Contar os capítulos principais dessa longa jornada, por si só, renderia um livro enorme. Muita, muita, muita coisa nessa jornada. Devo contar alguns causos em escritos futuros. Boas histórias. Porque meus 22 anos na JF foram e ainda tem sido muito bons. Pouquíssimos capítulos com alguma tristeza ou dissabor. Quase sempre as coisas correram bem, muito mais do que um dia eu imaginaria, quando ainda piazão, naquele 22 de setembro de 1999, apresentei-me para meu primeiro dia de trabalho. Uma jornada muito rica estava começando. Sim, histórias que vale a pena contar. Vou contar.
Hoje, 22 de setembro de 2021, com MEIA VIDA na Justiça Federal, tudo que posso fazer é ter um coração grato, muito grato por tudo. Por aqueles personagens iniciais – e sim, tudo nas linhas acima aconteceu exatamente como descrito; pelos meus primeiros colegas de trabalho e pelos muitos que vieram depois e foram se sucedendo nas muitas fases por que passei em setores diferentes; a composição inicial da 3ª Vara Federal de Maringá; minhas primeiras audiências com o Dr. Erivaldo; os aprendizados incríveis com meu Diretor Elsion; o 1 ano e meio que morei em Porto Alegre e trabalhei no TRF4, com as viagens e audiências no Projeto Conciliação; os tempos da Vara Federal do SFH e do Idoso (novamente em Maringá); meu 1 ano a serviço do CNJ viajando pelo Brasil, com os mais de 90 mil processos de presos revisados no período (dos quais 1/3 resultaram em medidas para liberdade); os 2 Prêmios Innovare no currículo; o retorno para Maringá e minha indicação para a Direção de Secretaria (sonho por tanto tempo acalentado); as muitas inovações que pude implementar nos meus 2 anos e meio como Diretor, sempre respaldado pelo Dr. Matheus, e excelentemente auxiliado por toda a equipe da 4ª Vara Federal de Maringá; meu 1 ano como Chefe de Gabinete na Turma Recursal do Paraná, em Curitiba; novo retorno para a Cidade Canção em 2014 e a intensa greve de 2015, com minhas 8 viagens até Brasília; aquela vez, no dia da votação do VETO, em que dormi no gramado da Esplanada dos Ministérios (dias de muita luta, porque não sei não ser intenso em tudo que me envolvo); até que chegamos ao HOJE, quando me encontro na mesma 4ª Vara Federal de Maringá, no mesmo cargo, analisando diariamente petições iniciais, minutando atos, despachos e sentenças, eventualmente substituindo na Direção, sempre participativo nas reuniões, ajudando nos dias de perícias médicas da 4ª Vara (diz a lenda que sempre que estou nesta escala, algum B.O. acontece), mais ou menos adaptado ao Home-Office imposto pela Pandemia de Covid-19, mas agora tendo já alguns dias de trabalho presencial na minha boa e velha mesa lá na JF da Avenida Herval.
É... muita coisa em 22 anos. Muita coisa para um carinha de 44 anos. Tem horas que bate uma sensação meio Forrest Gump, do tipo “Caraca, eu fiz tudo isso mesmo? Estive em todos esses lugares mesmo? Trabalhei em praticamente todos os níveis e setores e funções que um servidor poderia mesmo?”. Pois é. A resposta é SIM. Tudo isso rolou mesmo. E como passou rápido. E como foi bom. E como ainda é bom.
Não sei o dia de amanhã. Parece que ainda terei um longo tempo pela frente na JF. Se sim, que bom. Que venham e sejam excelentes. Se não, se por alguma razão eu não completar uma jornada na Justiça Federal até minha aposentadoria, sempre serei grato pelo muito que vivi, aprendi e ensinei neste precioso lugar. Mas principalmente, grato pelas pessoas que fizeram comigo esta caminhada, influenciando-me e sendo parte do processo que me tornou o homem que sou.
Gratidão. Muita gratidão. MEIA VIDA na Justiça Federal do Paraná.
Parabéns pela dedicação e pelo excelente trabalho. É um orgulho ser seu colega.
ResponderExcluirQue história de vida linda. Parabéns. Vc é e sempre sera um grande amigo do coração. Obrigado pelas palavras e pela deferência. Grande abraço.
ResponderExcluirParabéns pela história de vida e pelo profissional que é. Vc é e sempre sera um grande amigo do coração. Obrigado pelo carinho, pelas palavras e pela deferência. Abração.
ResponderExcluirParabéns pela trajetória incrível e obrigado por todos os ensinamentos!
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