quarta-feira, 1 de setembro de 2021

054 TUDO A SEU TEMPO

Uma semana longe dos Escritos Aleatórios. A publicação 053 ocorreu na quarta passada e nesse interregno (hoje também é quarta) passou-se o final de semana, período em que eu normalmente teria publicado mais um texto. Sábado ou domingo, conforme o caso. Nunca sei ao certo em qual dia ou período sai o texto do final de semana. Se vou pedalar sábado cedo, é certo que isso me consumirá a manhã toda, aí chego cansado, rola sono de tarde, e é bem comum eu escrever no início da noite. A não ser que surja algo para fazer ainda no sábado, pelo que jogo para domingo as 2 ou 3 horas que aplico na produção de um novo texto. É, parece fácil, como se eles brotassem do teclado em poucos minutos, mas a verdade é que os escritos costumam consumir um tempo bem razoável, como regra. Há os “vapt-vupt”, que vejo concluídos em 1 horinha, mas são exceções.

Aí sexta, fim de tarde, eu arrumando a mochila para uma pequena viagem que iria fazer, chego ao seguinte dilema: levar ou não levar o notebook, para escrever no fim de semana? É um equipamento leve e compacto, não custaria nada levar. Aliás, nem seria certo se eu escreveria, a depender das programações na viagem. Por um instante pensei levar. “Vai que pinta uma janela de horas vagas...”. Para no instante seguinte pensar diferente: “Melhor não. Faz praticamente 10 meses desde a última viagem até Cascavel/PR, e o foco é dar atenção máxima às pessoas que lá me aguardam: Day, Silvio e Alice”. Creio que fiz bem, pois assim eu eliminava a mais remota possibilidade de dividir minha atenção. Meu tempo seria todo dedicado a eles.

Hoje falaremos um pouco sobre o TEMPO. Este recurso fantástico, cuja característica que mais me chama atenção é sua IRRECUPERABILIDADE.

Pois é. A velha e famosa frase “recuperar o tempo perdido” não passa de fumaça, porque tempo não se recupera. Cada porção é única. Uma vez consumida – bem ou mal – foi-se para sempre. Outras porções virão (espera-se), mas não aquela que se perdeu anteriormente. Pode-se, na melhor das hipóteses, realizar na nova porção aquilo que estava previsto para a anterior, mas sem relação alguma entre elas, no que diz respeito ao tempo. A única coisa em comum seria a tarefa; na primeira ela não foi feita, mas na segunda sim. Zero relação entre os tempos. Nada foi recuperado.

Algo que observo sobre o tempo, são as diferentes perspectivas em diferentes fases da vida. Falarei por mim, mas penso que a ideia represente também as percepções de outras pessoas. Quando bem jovens, desejamos que o tempo passe rápido, pois queremos fazer aniversários logo e crescer, para fazermos as “coisas de adultos”, o que quer que isso signifique numa cabeça infantil. Na minha de (sei lá) 10, 12, 15 anos de idade, “coisas de adulto” significavam dirigir um automóvel, ter uma mulher e poder dormir com ela, trabalhar e comprar as coisas que eu quisesse, sem o inconveniente de ter que pedir dinheiro para os meus pais; tomar minhas próprias decisões e ter o meu estilo de vida. Não que a vida fosse ruim – longe disso, pois tive uma infância excelente – mas penso estar em nós, ainda que inconscientemente, a pressa de crescer.

De outra sorte, jogando nesta cesta de ideias umas 5 ou 6 décadas de vida, a relação com o tempo muda drasticamente. Não há mais pressa alguma. Queremos mais é que ele desacelere, quando justamente mais e mais percebemos que ele só faz passar. A frase “tenho mais passado do que futuro” é bem impactante e tira o sono de alguns. A frase “já sou velho demais para morrer jovem” não me tira o sono, mas sim umas boas risadas, desde que a ouvi pela primeira vez, dita pelo meu amigo Cleiton.

Quando jovens, queremos o tempo acelerado. Quando idosos, bem lento ou parado. Insatisfações são ingredientes de grande proporção na receita do ser humano. Daqueles que aparecem entre os primeiros na tabela de composição nutricional.

E cá estou eu, pelo meio da vida (teoricamente), refletindo sobre o tempo. Não estou mais na ponta dos meninos que querem crescer rápido, para fazer coisas de adulto; nem na ponta dos muito mais velhos, que tudo que mais desejam seria poder parar o tempo, por saberem que seu estoque vai se aproximando do fim. De fato, este tema é muito interessante. Pressa para que ele passe logo, certamente não tenho. E sei que o desejo de pará-lo seria inútil, razão por que não penso muito assim. “Aaaah, lá vem o ser iluminado e que não se abala por nada”. Né não, mané. É apenas um raciocínio lógico. Gastar tempo desejando algo impossível é justamente o que menos preciso fazer com meu tempo; tempo este que tenho cada vez menos. Perdê-lo com ideias sem propósito é tolice. Brigar com o envelhecimento é bobagem. Como eu sempre digo: “Morre, que passa!”. Uai! Não quer envelhecer, é só morrer. O tempo para de passar (mas só pra você).

Falar sobre minha relação com o tempo renderia um livro inteiro. Não tem como esgotar num curto escrito como este, então o jeito é abordar um ou dois aspectos, para quem sabe contribuir com aqueles que tem sofrido perdas nessa área. Perdas irrecuperáveis, repita-se. As próximas linhas parecerão bobagem para todos aqueles que já tem lidado bem com seu tempo, mas precisamos sempre nos lembrar que nem todas as pessoas alcançaram o que já alcançamos, ainda que nos pareça óbvio.

Então assim, se tenho um recurso preciosíssimo, limitado – que não conheço de antemão qual o meu estoque – e irrecuperável, preciso dar a este recurso a devida importância. Fazemos isto com coisas menores (como o dinheiro), então por qual razão não dar ao tempo a proeminência devida? Eu o faço. Um recurso valioso precisa ser bem administrado. No presente caso, isto significa bem distribuí-lo, bem organizá-lo, para que todas as coisas que precisamos fazer tenham a sua porção: descanso, estudos, trabalho, atividades físicas, tempo com Deus, relacionamentos, alimentação, deslocamentos, pagamentos, eventualidades, etc, etc, etc. Citei 10 itens, mas há muito mais!

Lembro-me que bem mais jovem eu tentei fazer todas as coisas caberem em cada dia. Ou seja: TUDO TODOS OS DIAS. Claro que não deu certo. Uma vida cronometrada e pesadíssima de levar. Depois tentei levar minha rotina de coisas por fazer conforme a demanda aparecesse, ou algo equivalente a não ter uma agenda prévia. Também não funcionou, pois havia tempo demais desperdiçado. E assim fui ajustando, com dezenas de formatos diferentes, sempre em busca de uma agenda fixa e perfeita, que funcionasse para sempre, jamais demandando ajustes... para descobrir não ser possível. E sabe como eu resolvi? Quando coloquei na minha agenda o último item citado no parágrafo anterior: AS EVENTUALIDADES.

Ah, antes que eu me esqueça: O MODELO MAIS PERFEITO DE ORGANIZAÇÃO DO TEMPO É SEMANAL. FAZER TUDO CABER NUMA SEMANA. Noutra oportunidade a gente aprofunda. Mas voltando:

O que essas eventualidades serão, não temos como saber de antemão, mas é bastante sábio reservar espaço para elas. Porque há três tipos: as imediatas, as urgentes/importantes e as comuns. A primeira, como a própria categorização já diz, é pra já! É o acidente de trânsito; a perda de sua carteira com todos os documentos; o café derramado sobre sua roupa; a energia elétrica que acabou inesperadamente e te deixou sem internet para trabalhar no home-office. Coisas como essas colocam sua agenda de pernas para o ar, impactam de forma imediata. Você não tem muito o que fazer, a não ser adaptar-se, tentar não se estressar demais, e superar. Mas o grande lance está em que os espaços para eventualidades em sua agenda resolvem as duas outras categorias. As eventualidades urgentes/importantes e as comuns, normalmente você conseguirá encaixar e absorver melhor, sem que todo o mais fique de pernas para o ar.

“Peraí Fer, eu quase concordo. Mas e essa eventualidade urgente/importante aí? Como assim? Claro que ela vai zoar a agenda toda”. Calma, calma, pequeno padawan. Não necessariamente. Nem tudo que é urgente/importante precisa ser resolvido na mesma hora. Muito provavelmente será bem resolvido, se o fizer ainda no mesmo dia. Exemplos, exemplos. Nada como os exemplos. Minha mãe é uma jovem senhora, que vez por outra precisa do meu auxílio em algo. “Filho, preciso de você para tal coisa. Você consegue me ajudar?”. Aí eu filtro. Se for algo imediato, está resolvido. Vou na hora! (Ela lê meus escritos e poderá confirmar se é assim ou não rs). Se não for imediato, mas que eu consiga fazer no curso do dia, a resposta é SIM, claro que vou ajudar. Com alguma habilidade, faço caber naquele restante de dia. São coisas que vez por outra ocorrem. Mas se for algo mais de boa, que para ela seja indiferente o momento em que farei, melhor ainda. Tenho os espaços perfeitos na agenda para dar conta do auxílio, e ainda finalizo a semana como bom filho.

Das três categorias, somente uma delas tem o potencial de bagunçar as coisas. Dois terços das eventualidades você conseguirá absorver melhor, sem que os níveis de estresse subam desnecessariamente.

“Beleza, beleza, tudo muito lindo e teórico, mas ainda não consegui visualizar como a coisa acontece na prática, Fer”. Para isso eu precisaria detalhar minha agenda. Não que fosse problema, mas a proposta não é esta. Então vou pinçar uma pequena parte dela: minhas manhãs de segundas, terças e quartas são livres, totalmente livres como regra. Não inúteis, claro. Realizo tarefas domésticas, faxinas na casa, manutenção nas bikes, sempre coloco algumas leituras, vez por outra uma ida rápida ao mercado. Coisas assim. Coisas de dentro da casa ou muito perto de casa. Lembrando: é a MINHA ROTINA. Nem sempre foi assim. Na maior parte da vida eu não tive três manhãs totalmente livres e flexíveis para usar como eu quisesse. Mas alcancei esta condição neste momento da vida, então uso assim.

Essas três manhãs, embora sejam rotineiramente muito bem aproveitadas, são justamente os espaços que uso para eventualidades. Marco uma consulta médica; um ajuste no dia da fisioterapia – que normalmente seria na quinta, mas precisou ser antecipada pelo fisioterapeuta; aquele chamado da Dona Mirian para eu resolver algo para ela; e muitos eteceteras. Vou alocando todas essas eventualidades não imediatas nessas três manhãs, assim preservando tranquilamente a estrutura fundamental das minhas muitas outras atividades da agenda. O trabalho não foi afetado – pois é, eu tenho a bênção de trabalhar das 11h às 18h; tampouco meus treinos nos fins de tarde (musculação e bike, faço sempre pelas 18h30 ou 19h a seguir); idem para minhas horas de leitura de noite, os Escritos Aleatórios nas noites de quarta, Cinema em Casa nas sextas, e por aí vai. Fecho a semana fazendo tudo que preciso, tudo que gosto, tudo que escolho, e ainda dou jeito de fazer uns extras eventuais. Nível de estresse? Normalmente, perto de zero. O segredo? Organização e planejamento, como deve ter ficado bem claro. Flexibilidade. Aceitar que há imprevistos e eles não precisam virar incêndios emocionais.

Anos atrás eu pude ajudar uma amiga minha que estava bem enrolada com seu tempo. Precisava estudar, havia se formado em Direito e o Exame de Ordem se aproximava. Perdidaça na organização!!! Só faltava chorar, por não saber por onde começar. Encontramo-nos, fiz um rápido mapeamento das atividades presentes dela e passamos para a montagem da nova grade semanal. Magicamente (só que não) apareceu tempo para tudo: estudos (muito!!!), atividades físicas, 8 horas de sono por noite, namorado, e tudo mais. Ela olhava para aqueles rabiscos numa folha de papel e quase não conseguia acreditar. “Como assim? Em questão de minutos você montou isso e eu percebo que é plenamente possível cumprir”. Pura organização e administração. Ah, ela passou no Exame da OAB. No primeiro. Mérito total dela. Um empurrãozinho mínimo meu, naquilo que eu podia fazer.


Então eu fecho a mochila sem o notebook, passo 4 horas no busão, madrugo em Cascavel, passo dois dias ótimos na casa da minha amiga e sua família, temos horas e horas de boas prosas, risadas, refeições, igreja, chegamos até a visitar outros amigos por lá, e tal e tal e tal... um fim de semana fantástico. Quem sabe qual mensagem eu teria comunicado a ela, se tivesse levado o computador para escrever?! A do “Caxias” que não pula de jeito nenhum um item de sua agenda? Talvez. Por muito me amar e saber do meu compromisso com os Escritos, talvez ela não se incomodasse tanto, mas seria possível lá no fundo chatear-se um pouco por eu não ter dado atenção integral naquele fim de semana. Como adiantei lá nos parágrafos iniciais, optei por nem correr este risco. Afinal, há tempo para todas as coisas. Aquele era o tempo da amizade. Hoje, tempo de escrever.

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar; Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar; Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar; Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora; Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar; Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz. (Eclesiastes 3:1-8)

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