Uma das coisas que sempre me chamou a atenção na Palavra foi o fato de Deus utilizar-se de pessoas fora do padrão para cumprir seus propósitos. Pessoas improváveis.
Farei de você um grande povo, e o abençoarei. Tornarei famoso o seu nome, e você será uma bênção. Abençoarei os que o abençoarem e amaldiçoarei os que o amaldiçoarem; e por meio de você todos os povos da terra serão abençoados. (Gênesis 12:2-3)
Tornarei a sua descendência tão numerosa como o pó da terra. Se for possível contar o pó da terra, também se poderá contar a sua descendência. Percorra esta terra de alto a baixo, de um lado a outro, porque eu a darei a você. (Gênesis 13:16-17)
Levando-o para fora da tenda, disse-lhe: ‘Olhe para o céu e conte as estrelas, se é que pode contá-las’. E prosseguiu: ‘Assim será a sua descendência. (Gênesis 15:5)
Estabelecerei a minha aliança entre mim e você e multiplicarei muitíssimo a sua descendência. (...) De minha parte, esta é a minha aliança com você. Você será o pai de muitas nações. (...) Eu o tornarei extremamente prolífero; de você farei nações e de você procederão reis. Estabelecerei a minha aliança como aliança eterna entre mim e você e os seus futuros descendentes, para ser o seu Deus e o Deus dos seus descendentes. (Gênesis 17:2, 4 e 6-7)
Eu a abençoarei e também por meio dela darei a você um filho. Sim, eu a abençoarei e dela procederão nações e reis de povos. (Gênesis 17:16)
Passaram-se 25 anos desde a primeira promessa de Deus a Abrão, registrada no capítulo 12, até a promessa feita à renomeada Sara, do capítulo 17. Pouco tempo atrás, Abraão chamava-se Abrão, e teve seu nome mudado. E numa das várias renovações da aliança, desta vez mencionando sua esposa, o nome dela passou de Sarai para Sara. Pai de muitas nações. Princesa. Seus novos nomes.
Quando lemos as histórias da Bíblia, por já sabermos os desfechos, meio que nos acostumamos. Deixamos de notar o espetacular de Deus. Mas imagine que você estivesse tendo contato pela primeira vez com a história de um casal chamado Abrão e Sarai. Por iniciativa de Deus, eles passam a ouvir promessas. Uma após outra, sempre com mais detalhes, e renovações, confirmações, até que finalmente você chega aos versos 1 e 2 do capítulo 21 de Gênesis:
O Senhor foi bondoso com Sara, como lhe dissera, e fez por ela o que prometera. Sara engravidou e deu um filho a Abraão em sua velhice, na época fixada por Deus em sua promessa.
Bem, aí você dá aquela franzida na testa, para tudo, e se vê surpreendido por uma palavrinha meio desconectada do quadro que vinha desenhando em sua mente até então: “VELHICE? Como assim? Eles são idosos?”
Pois é. Como eu disse, por conhecermos as histórias completas, nos acostumamos.
Seja sincero. Uma história como esta, com aquela primeira promessa no capítulo 12, e seu lindo desfecho no capítulo 21, se os vários textos não dissessem as idades dos seus personagens (omiti de propósito), por alguma razão você teria feito o filminho da história em sua mente com um casal de idosos? Pois é, pois é. Mas aí você descobre que tudo começou quando ele tinha 75, e se consumou já como um homem centenário. Papai aos 100 anos. Mamãe aos 90 anos.
Que história, né?
Hipoteticamente, sai hoje uma manchete nos jornais de que um casal moderno, destes nossos dias do século XXI, está tentando ter um filho já faz 25 anos. Hummm... rola a boa e velha franzida na testa. Você se dá ao trabalho de continuar lendo a matéria e descobre que eles começaram as tentativas quando tinham 75 e 65 anos, respectivamente. Faz as contas e hummm... mais franzida. “Para! Só pode ser brincadeira. Um homem de 100 e uma mulher de 90 brincando de serem papai e mamãe?! São loucos, só pode”.
Pois é, pois é.
Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias, e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; e Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; para que nenhuma carne se glorie perante ele. (1 Coríntios 1:27-29)
É assim que Deus faz. Para entregar uma promessa fundamental, aquela que implicava no estabelecimento de SEU POVO e, no longo alcance, a extensão de seu amor para todas as famílias da Terra, o Senhor escala um casal de improváveis velhinhos.
Vários anos se passam. Aquela promessa inicial se cumpre em Isaque, que também gera filhos com sua esposa. O caçula, Jacó – cujo nome significa “aquele que age traiçoeiramente” – fazendo jus ao nome, obtém para si as bênçãos da primogenitura. Em nossa cultura atual, na qual o fato de ser o primeiro ou o décimo filho pouco importam, pois todos terão rigorosamente os mesmos direitos, isso não nos gera espanto. Mas nos idos de aproximadamente 1800 a.C., não era bem assim. O primogênito tinha porção dobrada sobre todos os demais herdeiros. Materialmente falando e espiritualmente falando, as bênçãos proferidas pelo patriarca eram quase todas para o “primeirão” da turma.
Eu o constituí senhor sobre você, e a todos os seus parentes tornei servo dele; a ele supri de cereal e de vinho. Que é que eu poderia fazer por você, meu filho? (Gênesis 27:37)
Deveriam ser as palavras de Isaque ao filho mais velho, mas, na contramão da lógica da época, este ficou em segundo plano. Sim, sim, claro que houve aquela história de o mais novo ter ludibriado o pai, fazendo-se passar por Esaú, mas era apenas o caçula sendo ele mesmo, o enganador que agia traiçoeiramente. Tomou para si todas as bênçãos da primogenitura. Outro improvável.
Ué, mas onde estava Deus nisso tudo? Ele não viu a malandragem de Jacó para com seu pai? Por que Ele permitiu que algo tão ardiloso prosperasse? Coitado de Esaú!
Calma, calma. Muita calma nessa hora.
Certa vez, quando Jacó preparava um ensopado, Esaú chegou faminto, voltando do campo, e pediu-lhe: ‘Dê-me um pouco desse ensopado vermelho aí. Estou faminto!’ Por isso também foi chamado de Edom. Respondeu-lhe Jacó: ‘Venda-me primeiro o seu direito de filho mais velho’. Disse Esaú: ‘Estou quase morrendo. De que me vale esse direito?’ Jacó, porém, insistiu: ‘Jure primeiro’. Ele fez um juramento, vendendo o seu direito de filho mais velho a Jacó. Então Jacó serviu a Esaú pão com ensopado de lentilhas. Ele comeu e bebeu, levantou-se e se foi. Assim Esaú desprezou o seu direito de filho mais velho. (Gênesis 25:29-34)
Bora então repetir a pergunta: Onde estava Deus nisso tudo?
E formular uma nova: Coitado de Esaú?
Nada como parar um pouco mais no texto e falar com ele, né. E deixa o texto falar.
Jacó, o traiçoeiro, não roubou a primogenitura do irmão. Se o fizesse, estou certo de que o Senhor não o teria permitido, e jamais abençoado. O que ele fez, foi comprá-la. E o que seu irmão fez, foi desprezá-la. Um acordo. Um negócio. Ambos estavam cientes dos termos. Disseram SIM. Tudo certo. Não houve injustiça. Pão, ensopado e quem sabe um pouco de vinho, em troca das maravilhosas promessas feitas por Deus desde aquele início de conversa com o avô deles. Estou certo de que Isaque sabia das promessas, bem como seus filhos gêmeos. Um levou a sério. Outro não deu bola. Mas... favas contadas. Negócio fechado. O improvável caçula ficou com tudo.
Segue a história. Um dos muitos filhos de Jacó (renomeado para Israel; significado: “ele luta com Deus”), José foi outro improvável com história incrível. Os capítulos 37 a 50 de Gênesis contam todos os detalhes. O penúltimo filho, queridinho do pai, odiado por seus irmãos mais velhos. Numa saga de aproximadamente 95 anos, desde seus primeiros sonhos na juventude, até suas últimas palavras no Egito, ele vai de um menino sonhador até o segundo mais alto posto na maior nação de então no mundo. Também por conhecermos a história de antemão, lemos trivialmente. Mas não. Não foi nada trivial ou básico. Novamente, Deus utilizando-se das coisas fracas para mostrar às fortes que é do jeito dEle. José, mais um na longa lista de improváveis.
Moisés, o hebreu adotado pela filha do Faraó, criado à base de leite de pera no palácio, vem a tornar-se um homicida. Depois, um exilado, fugitivo da justiça. Longos quarenta anos na terra de Midiã. Aproximadamente 100 anos haviam se passado desde a morte de José, para vermos Deus levantar outro improvável para cumprimento de seus planos. Com seu passado enterrado na areia, o agora idoso Moisés vai tocando sua vida (80 aninhos). Casa-se. Gera um filho, cujo nome (Gerson) diz muito sobre questões mal resolvidas no íntimo do pai: “sou imigrante em terra estrangeira”. Moisés foi tocando em frente, mas ele sabia que lá no Egito estava sua raiz, seu povo. Deus também sabia disso. E o que Ele não saberia? Vem a sarça ardente, os sinais e maravilhas (escrito 041), a Páscoa, a saída extraordinária do Egito, 40 anos no deserto, o Sinai, as Tábuas da Lei, o Tabernáculo (escrito 044), o maná, a nuvem de dia, a coluna de fogo de noite, e mais e mais e mais. Eita! A vida de Moisés não foi nada básica! Mas também conhecemos a história de antemão, por isso lemos como se tivesse sido tão normal. Não foi, não. Foi incrível! E mais incrível ainda, por Deus ter feito tudo aquilo com um homicida, auto-exilado, octagenário, ruim de fala, cheio de desculpas para fugir da missão... vindo a tornar-se o maior profeta de Israel em todos os tempos.
Moisés tinha cento e vinte anos de idade quando morreu; todavia, nem os seus olhos nem o seu vigor tinham se enfraquecido. Os israelitas choraram Moisés nas campinas de Moabe durante trinta dias, até passar o período de pranto e luto. Em Israel nunca mais se levantou profeta como Moisés, a quem o Senhor conheceu face a face, e que fez todos aqueles sinais e maravilhas que o Senhor o tinha enviado para fazer no Egito, contra o faraó, contra todos os seus servos e contra toda a terra. Pois ninguém jamais mostrou tamanho poder como Moisés nem executou os feitos temíveis que Moisés realizou aos olhos de todo o Israel. (Deuteronômio 34:7-12)
Parafraseando Hebreus 11:32: “E que mais direi? Faltar-me-ia o tempo contando de”... Raabe, Gideão, Rute, Davi, a menina serva de Naamã, Daniel, Jonas, João Batista, os Doze, a mulher samaritana no poço, o endemoninhado gadareno, Pedro, Saulo (renomeado para Paulo), eu, você...
Mais do que chamar minha atenção, ENCANTA-ME o fato de Deus utilizar-se de pessoas improváveis para cumprir seus propósitos. Em histórias idealmente perfeitas, filmadas numa visão humana, as coisas incríveis que encontramos nas histórias da Bíblia só teriam personagens lindos e virtuosos, jovens (sempre), sem rastros complicados no passado. E sem Deus no enredo, por consequência.
É assim, porque a visão humanista predomina por aí. O que se puder fazer para colar a ideia de um mundo funcionando sem Deus, será feito. “O homem é a medida de todas as coisas”; “Acredite em seu potencial”; “Você quer, você pode”. Isso soa como veludo nos ouvidos, mas não passa de uma doce mentira, com o mau e velho cheiro de enxofre.
Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. (João 15:5)
Somos todos improváveis. Eu sou um, por excelência. De mim mesmo, o que eu poderia apresentar como credenciais ao Senhor? A resposta é simples: NADA. Entretanto, Ele me quer. Ele se importa. Ele me direciona para coisas que quer fazer. Mas nada disso é por causa de mim. É tudo apesar de mim. Sem o Sangue do Cordeiro nos umbrais das minhas portas, seu Justo Juízo chegaria e me encontraria inabilitado. Eu seria o primeiro primogênito na fila dos imolados. Mas glória a Deus que não! Cristo vive em mim.
Finalizo este escrito com minha porção favorita das Escrituras Sagradas:
Quem deu crédito à nossa pregação? E a quem se manifestou o braço do Senhor? Porque foi subindo como renovo perante ele, e como raiz de uma terra seca; não tinha beleza nem formosura e, olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos. Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum. Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós. Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca. Da opressão e do juízo foi tirado; e quem contará o tempo da sua vida? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; pela transgressão do meu povo ele foi atingido. E puseram a sua sepultura entre os ímpios, e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca. Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do Senhor prosperará na sua mão. Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento O MEU SERVO, O JUSTO, JUSTIFICARÁ A MUITOS; porque as iniquidades deles levará sobre si. Por isso lhe darei a parte de muitos, e com os poderosos repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si os pecados de muitos, e intercedeu pelos transgressores. (Isaías 53, capítulo completo)
Os improváveis.
Quem somos nós para considerar alguém improvável?
Quem somos nós? todos improváveis, que também somos.
A prostituta Raabe, o medroso Gideão, a estrangeira Rute, o sanguinário Davi, a anônima menina serva de Naamã, o radical Daniel, o fujão Jonas, o esquisitão João Batista, os desordenados Doze, a indesejável mulher samaritana no poço, o endemoninhado gadareno, o bipolar Pedro, o perseguidor Saulo (renomeado para Paulo), eu, você...
Todos improváveis. Todos insuficientes. Todos injustos. Justificados pelo único Justo, sem o qual NADA PODEMOS FAZER.
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