quinta-feira, 8 de julho de 2021

040 RAIZ E NUTELLA

O dia começou – em sua parte acordada – às 7h. Pulei as “sonecas” do despertador – vício que eu não tinha, mas ultimamente tenho usado mais do que deveria – e logo fui comer algo. Como estivesse fazendo um pouco de frio, mingau de aveia com granola e mel. Top! Calça jeans, camiseta e blusa corta-vento, chave da moto, carteira e documentos. Dentre estes, a carteirinha de vacinação, que encontrei na noite anterior em meio às várias pastas com papelada. Tem uma só com as coisas de saúde (receitas, exames), então não foi difícil localizar.

Às vezes puxo fatos ocorridos há muitos anos, para bolar uma prosa aqui nos escritos, mas desta vez a coisa é recentíssima. Ontem fui tomar a vacina para imunização contra a Covid-19. Meu dia, conforme calendário divulgado pela Prefeitura de Maringá, havia passado. Não fui. Teria uma corridinha de bike com meus amigos no final de semana, e eu não queria ficar de fora. Todo mundo comentando que eram comuns alguns efeitos colaterais nos dias seguintes à vacinação, tais como dor-de-cabeça, prostração (aquela sensação de que se tomou uma surra), febre leve e outros. E foi exatamente o que ocorreu comigo, porque de ontem para hoje foi tenso. Foi não, está sendo. Mas não é disso que falaremos.

Pelas 7h40 eu estacionava minha moto nas imediações da UBS Mandacaru, vendo de longe que a fila já dava volta na quadra, e começava a se alongar ainda mais. Centenas de pessoas madrugaram para a vacinação com início previsto para 9h. Uns 20 minutos depois da minha chegada, a quantidade de pessoas havia dobrado. Ainda bem que não utilizei as “sonecas” no despertador do celular. E ainda mal que não coloquei uns 15 minutos mais cedo, pois teria economizado um bom tempo de fila.

Não havia muita opção. Já que eu estava no local, bora encarar umas horas de espera e ticar uma pendência a menos na agenda. Conversando com algumas pessoas amigas, tive a informação de que havia boas chances de ontem ser aplicada uma vacina de dose única (Janssen), e foi isso mesmo que ocorreu. Pelas 10h40, ou seja, 3 horas após estacionar minha moto, eu saía da UBS com meu selo da vacina. E vida que segue. Ao longo do dia, tudo normal, para de noite começarem os já mencionados efeitos colaterais. Toda esta descrição, apenas para criar o ambiente e passar o contexto do fato que vem a seguir.


Lá pelas tantas, provavelmente 10h, quando minha posição na fila virava a última esquina, faltando pouco para chegar ao portão da UBS, ainda havia um mundaréu de gente daquele ponto da fila para trás. Ela ainda contornava toda a quadra e o último estava bem próximo do meu local. Um ou outro iam chegando, alguns permaneciam, outros olhavam para o relógio, olhavam para a fila e iam embora, meio que entendendo que não sairiam dali em menos de 3 horas. Até que chegou um rapaz, doravante chamado de PIAZÃO NUTELLA.

Jeitão de Bicho Grilo: chinelo de dedo, bermuda largona, agasalho com capuz, barba rala e cabelos compridos. Um cara falador. Bem, foi o que pareceu ontem, visto que falava com o vento, sem dirigir-se a ninguém especificamente, e ao mesmo tempo falando com todos.

- Ah, fala sério que a fila está dando a volta na quadra?! (eu e mais alguns olhamos para ele, naturalmente)

- Caraaaaca, véi. Putz!

Olhava para o relógio. Puxava o celular. Todo agitado.

- Nossa, véi. É uma droga de país mesmo. Olha que absurdo a gente ter que ficar numa fila deste tamanho. (nesta hora eu e mais alguns da fila já não olhamos para ele, mas nos olhamos entre nós, meio que dizendo silenciosamente uns para os outros “chegou a estrelinha”)

E puxa celular, e guarda celular, e se mexe e se mexe, e balança a cabeça em sinal de negativo. Parecia que estava coberto de pulgas.

- O certo era a gente agendar a vacina e tomar a casa. Absurdo isso aqui. Eu preciso trabalhar, pôw! (aí a galera da fila não se conteve)

- Ow bonitão, só você precisa trabalhar? Todo mundo aqui também trabalha!

- Não quer ficar na fila, não fique. Vaza!

- Não chega cedo e ainda reclama?

Então o Piazão Nutella se tocou, após tomar uns merecidos pitos de ilustres desconhecidos, e fechou a boca. Ainda todo inquieto. As pulguinhas mordendo.

Uns 15 minutos depois eu estava vacinado e indo embora. Lembrei-me do Piazão Nutella o dia todo. Um típico produto dos nossos tempos fáceis.


No primeiro escrito deste blog, o 001 AMOR EM TEMPOS DE PANDEMIA, eu transcrevi o seguinte provérbio oriental: “Homens fortes criam tempos fáceis, e tempos fáceis geram homens fracos; mas homens fracos criam tempos difíceis, e tempos difíceis geram homens fortes”.

Na manhã de ontem, no final daquela fila, estava o fruto desses tempos fáceis por que o Brasil passa há algumas décadas. “Ow loco, Fer. Fala sério! Tempos fáceis onde?”.

Fala sério, digo eu!

Tenho uma forte convicção de que vivemos tempos muito fáceis. O Mertiolate não arde mais. Reprovar na escola é uma façanha para poucos. A molecada dá de dedo na cara dos pais, todas conhecedoras dos seus muitos direitos. As assistências do Estado estão todas aí à disposição. Alguns conseguem a vaga por se enquadrar nalgum tipo de cota. E por aí vai. Sem entrar no mérito se considero corretas ou não algumas dessas facilidades, o fato é que houve tempos em que as coisas eram mais difíceis. E não é muito difícil encontrar o marco temporal inicial desses tempos fáceis no Brasil.

No dia 5 de outubro de 1988 foi promulgada a famigerada Constituição Cidadã. Para quem não sabe, famigerada não tem conotação negativa, embora a maioria das pessoas recebam esta palavra assim. Famigerada é sinônimo de famosa. Meu pai cursava o 1º ano do curso de Direito, lá em Presidente Prudente. Eu, uma criança de 11 anos. Lembro-me do Dr. Ulisses Guimarães, que presidia a Assembleia Nacional Constituinte. Para mim, mais preocupado em brincar e estudar, aquela era apenas uma informação a mais na TV. O conteúdo do que ocorria estava muito distante da minha realidade infantil.

Mas, mal sabia eu que 8 anos depois eu estaria também no 1º ano de um curso de Direito. Maringá. UEM; ocupando-me com a famigerada Constituição Federal. Até pouquíssimo tempo antes, no ano de 1995, tudo indicava que eu seria um arquiteto. Encontrava-me em Londrina, indo muito bem em todas as disciplinas do curso de Arquitetura e Urbanismo. Mas os caminhos e as necessidades da vida – TEMPOS DIFÍCEIS – me levaram a tomar algumas decisões noutro sentido. Filho de uma família com poucos recursos, eu logo entendi que precisava fazer uma faculdade que me permitisse também trabalhar, o que na Arquitetura não era possível, pelo menos naquela época na UEL. Curso integral, com grade de aulas toda picada nos primeiros anos. Seria bem complexo coordenar estudos e trabalho naquele contexto. Deixei o curso.

Seis meses depois eu me encontrava nos bancos da UEM, no famoso Bloco D34. No primeiro ano tivemos apenas pinceladas do conteúdo normativo do Direito, propriamente dito. Várias disciplinas preparatórias, tais como Economia, Sociologia, Filosofia e outras. A favorita de todos os alunos: IED – Introdução ao Estudo do Direito, com o saudoso professor Horácio Raccanello Filho. Suas aulas eram fantásticas. Seguramente, o melhor professor que tive em todos os meus anos de estudos. Nunca conheci alguém com tamanho conteúdo e arte na forma de passar os conteúdos. Só quem foi seu aluno tem a dimensão do que eram aquelas aulas.

No 2º ano (1997), finalmente entramos para valer nas matérias jurídicas. Direito Processual Civil, Penal, Administrativo, Constitucional. Esta última, novamente com o Racca. Ele faleceu no final daquele ano. Fui aluno de sua última turma, uma honra que valorizo muito em meu currículo escolar. Que grande mestre!

Eu fui bem em Constitucional. Nota 9 no primeiro bimestre. Nota 3 no segundo. Depois devo ter fechado com 6 ou 7 nos seguintes, somando os pontos suficientes para minha aprovação na matéria. Como comentei no escrito 038 O DIA MAU, eu fiz muito disso. Não era obcecado por boletim dos sonhos, com 9 ou 10 em tudo. Matematicamente falando, eu administrava os números para ter aprovação. Agora, quanto aos conteúdos, nisto eu era mais caprichoso. Logo percebia o que era perda de tempo, sabendo distinguir do que era muito importante, e dava total atenção ao importante. Constitucional era importante! Não por acaso, a CF é chamada de Lei Fundamental.


O que percebi nos estudos de Direito Constitucional naqueles anos passados, bem como ainda hoje, fruto de farta legislação infraconstitucional que se seguiu, foi a tentativa de entrega de tempos fáceis aos seus destinatários. Aliás, outra das designações que nossa Carta Política recebe, vez por outra vista nos manuais, é de Constituição Cidadã. Seu conteúdo visa a entregar aos seus destinatários o famigerado (famoso) ESTADO DE BEM ESTAR SOCIAL. O texto é lindo. É um documento focado no cidadão. Ele receberá tudo que for possível do Estado. Único problema é que tudo custa. Mas pulando essa parte, considerando ser possível efetivar tudo o que nela é dito que nos será dado, indago se deve mesmo ser dado?

Eu não sou especialista em Políticas Públicas e nem em Ciências Sociais. Conheci um pouco de Constitucional na faculdade. Aprofundei um tiquinho numa especialização em Direito Público, anos depois. E o resto são pitacos, impressões do homem comum e observador.

Não sou de Direita, rigorosamente falando. Não sou de Esquerda, de jeito nenhum. Muito menos do Centrão. Nem ainda Isentão. Sou um livre pensante.

Progressista? De jeito nenhum. Conservador? Em alguma medida. Mas não conforme as definições dos manuais. Porque parece que hoje em dia se cobra das pessoas a formatação exata a isso ou aquilo, como se somente as definições dos manuais fossem válidas. Balela! A sociedade é muito plural. Eu retenho o que é bom, de várias fontes diferentes, e assim construo a minha singularidade.


Pois bem, onde quero chegar?

Nosso amiguinho Piazão Nutella é fruto do famigerado Estado de Bem Estar Social. Deve ter se acostumado a receber tantos benefícios da Pátria Amada Brasil, que acha um absurdo ter que se dirigir até uma fila, aguardar por umas horas, e tomar sem custo direto em seu bolso uma vacina importante para ele e para a sociedade como um todo. Mas não! O Piazão Nutella ainda consegue reclamar, achar que está tudo errado, que o certo seria receber a vacina em casa. Quem sabe até com um caixa de bombom e massagem nos ombros. “Foi mal, Piazão Nutella! Desculpe-nos pelo transtorno de tirá-lo do seu ócio para sentir uma dorzinha no braço”.

É muita nutellice! Não sabe o que é passar por dificuldades.

“Cuidaaaado, Fer! Será que seu telhado não é de vidro?”

Cara bem-sucedido. Emprego estável. Servidor Público Federal...

“Será que você tem mesmo autoridade para falar sobre dificuldades e nutellices?”

Acredito que sim. Talvez um pouco menos de autoridade do que meus pais. Certamente bem menos do que os meus avós. Bisavós idem. O já mencionado texto 001 AMOR EM TEMPOS DE PANDEMIA fala um pouco de coisas por que eles passaram. Ali sim teve perrengue, heim! Não havia espaço para Piazões Nutella. Tempos muito difíceis. Resultado: homens e mulheres fortes. Correram atrás, fizeram o melhor ao seu alcance, para que a geração seguinte não precisasse passar por tudo aquilo que eles sofreram. E a geração seguinte fez o mesmo, e a seguinte o mesmo, até que chegou a minha. Se colhi tempos mais fáceis do que meus predecessores, isso é excelente. Sinal que eles alcançaram seus objetivos, fizeram um bom trabalho. Todo pai, toda mãe, rala para que seus filhos não precisem passar pelas mesmas coisas, para que tenham um ponto de partida melhor do que eles tiveram. Isso não são privilégios. Isso é o que uma geração faz pela seguinte. Não está errado.

Certa vez alguém me disse que eu era um branco privilegiado. Bem, tirando a parte do racismo às avessas – porque seu eu me referisse a alguém como “preto-qualquer-coisa”, pode estar certo de que eu seria apedrejado – a única coisa que fiz foi dizer que a pessoa havia acabado de falar uma basteira, por nada saber sobre a minha história, a história dos meus pais, a sofrida história dos meus avós, e tudo que havia me levado até aquele momento. Ouvi isso de uma professora nos bancos da UEM, que me julgou pela cor da pele (branca), os olhos claros (meio verdes, meio mel), e por alguns aparentes sinais de prosperidade (roupas boas e um carro pago em suaves 60 prestações). Ela, também um típico fruto da Constituição Cidadã. A injustiçada do mundo, só porque era preta. Em sua concepção, o Estado tinha que dar tudo, tudo, tudo... e ainda seria pouco. Mas o meninão branco era o privilegiado. Ridículo!

Trinta e poucos anos do Brazilzão bancando muita coisa no cheque especial da nação. Tempos fáceis. Tempos muito fáceis. Piazão Nutella não se contenta com pouco. Quer mais e mais comodidades. Correr atrás não faz parte do seu vocabulário. Ralar e conseguir as coisas com o fruto do seu trabalho, imagina! “Eu mereço! O Estado me deve! Eu sou vítima da estrutura”.

Sei não. Só observo; com uma boa franzida na testa.

Era isso.

Seria este meu pequeno manifesto por mais Gente Raiz. O segundo texto da série DOBRADINHAS.

Se não concorda, de boas. Só não me apareça chorando, senão eu chamo de Nutella. Porque aqui o mertiolate ainda arde.

Um comentário:

  1. Ah, se todos soubessem a realidade alheia, acredito que haveria mais respeito!
    Realmente, as coisas mudaram é muito!
    O preço da conquista parece ser mais fácil!

    Lembro-me que caixa de bombom, era presente de natal, e band-aid só ia em machucados dos mais afortunados. Outros cicatrizavam na raça!
    Ah, como os tempos mudaram!

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