sábado, 3 de julho de 2021

038 O DIA MAU

Certa vez eu entrei na sala de casa e lá estava minha sobrinha Sara– 9 ou 10 anos de idade – chorando por causa de uma nota na prova. Um 9! “É injusto! Eu estudei tanto. Tirei 10 nos três primeiros bimestres e agora a Prôfe me deu este 9 para estragar meu boletim...” algo assim. Inconsolável. Claro que eu não segurei o riso – a sensibilidade masculina é coisa linda né – e isso só a fazia chorar mais, convencida que estava da terrível injustiça.

Pois é, a criança chorando por uma nota 9. Que dia mau para ela!

A vó (Dona Mirian) deu sinal para mim, num sentido de “se não vai ajudar, não atrapalhe”. Então resolvi fazer algo.

- Você está chorando por causa de uma nota 9, Sara?

- Buáaaaaaa... sim.

- Mas por quê? Nove é uma ótima nota.

- Buáaaaaaa... não é não. É ruim. Eu ia fechar o ano com 10 em tudo, mas a Prôfe me deu esta nota horrível.

- Hummmm...

- Buáaaaaaa...

- Bem, primeira coisa é que a Prôfe não te deu nada. Essa nota é sua, foi você quem a tirou. Tua Prôfe apenas anotou a nota que refletiu o seu conhecimento naquele dia, então pare de jogar a “culpa” pelo 9 a ela. A professora fez apenas seu trabalho.

- (nessa parte já não era Buáaaaaaa, mas algum solucinho de menina, com olhos marejados, cena que não consigo transcrever textualmente)

- A segunda coisa é que sua nota até pode ser um 10, caso tenha havido algum erro na correção da prova. Você já conferiu isso?

- Sim. Eu errei mesmo a questão. Não teve falha na correção.

- Certo. Então, mais uma razão para não jogar a culpa na Prôfe. Você errou mesmo e tirou 9.

- Buáaaaaaa... (tudo de novo).

Mais riso meu (de novo) e mais uma olhada bronqueada da vó, que assistia tudo da porta que ligava a cozinha à sala.

- Sara, é verdade que você é a melhor aluna da sala?

- Sim, e já sou há uns 3 anos seguidos, e agora com esse 9 meu boletim vai ficar horrível e eu não serei mais a melhor aluna.

- Hummmmm...

DECTECTADO SINAL DE ALERTA PARA ALUNAS PERFECCIONISTAS E FUTURAS SOFREDORAS!!!

Na hora eu percebi o que tinha à minha frente. Passaram-me, naquela fração de segundos, umas dezenas de ex-colegas de sala que tive, ao longo da vida estudantil – a maioria, meninas – com aquele mesmo e exato comportamento. Um ou outro menino também, mas em número muitíssimo menor. O que observei nos meus anos de escola foi sempre muito mais dedicação nas meninas, que ocupavam as primeiras carteiras, tinham sempre os cadernos impecáveis, estudavam mais, tiravam as melhores notas... e choravam por um 9. Sim, vi aquele quadro algumas vezes; a cena não era nova. Um detalhe interessante, que havia quase sempre:

- Sara, então você é a melhor aluna da sala?!

- Sou, tio Fer.

- Talvez seja até uma das melhores da escola, né?!

- Acho que sim... (um quase-sorriso, pois acho que ela não tinha pensado além das fronteiras de sua turma)

- Deixe-me então perguntar algo: tem alguns alunos ou alunas na sua sala que não gostam muito de você?

- Como assim, titio?

- Ah, sei lá. Tipo algum colega que não conversa muito com você, ou alguém que você tenta se aproximar, mas não consegue. Alguma panelinha que te deixe isolada deles.

- Tem sim, tio Fer.

- Que estranho, Sara. Porque você é uma criança incrível, amiga, divertida, etc, etc, etc.

- Então, tio Fer. Eu também não entendo por que elas me isolam e me tratam mal. Eu nunca fiz nada de ruim para elas.

A ESSA ALTURA O CHORO E O INCÔMODO PELO 9 NEM ERAM LEMBRADOS. MUDAR O FOCO. FICA A DICA!

- Fez sim, Sara. Você fez algo muito “ruim” para aquele pessoal.

- Não fiz, tio Fer. Eu juro! Eu nunca fiz nada para eles me tratarem assim.

- Fez sim. Você se destacou. Suas notas 10, perfeitas, as incomodaram. Elas não suportam o fato de você ser a melhor aluna da sala e, possivelmente, uma das melhores da escola.

OLHOS ARREGALADOS. COMO SE ESCAMAS CAÍSSEM E, AGORA, ELA PUDESSE VER.

- Sara, você acha o tio Fer inteligente?

- Muuuuuuuuito!

- Pois é, eu sou mesmo. Sou um cara inteligente. Mas você sabia que eu já reprovei na escola?

- O quê? Impossível!!!

- Não, não. Impossível nada. Reprovei não apenas na escola, mas também na faculdade, e a última reprovação foi num MBA que fins uns anos atrás (eu mais ou menos a consegui fazer entender o que era um MBA)

- Não acredito, tio Fer. Você reprovou mesmo?!

- Sim, Sara. Reprovei, já tive muitas notas ruins na vida (ruins de verdade) e sabe que se a gente desse uma olhada nos meus boletins, não encontraríamos muitos 10.

- Nossa! Eu achava que você sempre tirou 10 em tudo.

- Pois é. Muita gente acha isso. Muita gente acha que sou mais inteligente do que na verdade sou. O cara que tirava 10 em tudo, que leu 5000 livros, que deve saber falar umas 3 ou 4 línguas estrangeiras, viajou diversos países do mundo, e que sempre fez tudo certo.

- Uai, e não é?

EU RINDO DE NOVO.

- Não, Sara. O tio Fer é um cara bem normal. Muito dessa performance que você e muitos acham que tive ou tenho, são apenas uma imagem que se formou ao longo do tempo. Não sei por qual razão, pois eu nunca corri atrás de parecer esse cara perfeito. Sei lá, fui conseguindo algumas coisas na vida, obtendo sucesso num concurso aqui, um bom trabalho ali, sempre ajudei as pessoas, e acho que essa coisa de “o Fer inteligente” meio que pegou, a imagem colou em mim.

- Certo.

- E sim, eu sou muito inteligente, mas eu tenho muito mais dúvidas do que certezas. Com tooooooda a certeza do mundo, há muito mais coisas que eu não sei, do que coisas que sei. Ah, e tem um detalhe sobre minhas notas.

- Qual, tio Fer?

- Eu nunca fiquei focado em tirar 10. Eu me dava por muito satisfeito com um 9,5, um 9, um 8,5. Eu gostava de tirar notas nessa base.

- Mas por quê?

- Eu meio que notava que o ALUNO NOTA 10 era o excluidinho da sala, o xaropinho (na verdade, a xaropinha, pois quase sempre era uma menina a melhor de todos), e eu não queria aquele chapéu para mim. Eu ficava bem de boa com meus 8,5 a 9,5, sem sofrer com aquelas notas, e sem ser alvo dos olhares invejosos de ninguém. Eles que se incomodassem com outra pessoa.

- Hummmm

- Eu me importava mais em saber os conteúdos do que com boletins. Houve vezes em que eu até sabia a resposta completa, mas estava doido para terminar logo a prova e poder sair, então anotava uma resposta apenas satisfatória, suficiente para ser bem avaliado. O intervalo é mais legal do que fazer uma prova enorme, só para tirar 10.

- Entendi, tio Fer.

- Haverá provas, no futuro, onde a nota mais perfeita possível será necessária. Um vestibular. Um concurso. Bem, pelo menos no meu tempo era assim. Então nessa eu dava o meu melhor, buscava a perfeição. Mas chorar por um 9 na escola, jamais.

- Acho que entendi, tio Fer.


O choro já tinha ido embora faz tempo. Creio que alguma compreensão dessas realidades foi passada. E vida que segue. Dali a pouco estávamos todos almoçando naquela mesma mesa.

Bem, até onde sei, pelo que acompanho à distância, minha sobrinha continua sendo uma excelente aluna e com notas maravilhosas. Acredito até que hoje ela seja uma leitora mais disciplinada do que eu. Quem sabe até estude mais dedicadamente do que já estudei algum dia (o que não seria pouco). Não sei como tem lidado com notas não-10. Espero que melhor, para seu próprio bem-estar emocional.

“Ah, Fer. Fala sério! Vai dizer que seu papo-cabeça com uma criança de 9-10 anos foi exatamente como descrito acima?”

Tá de brinquêixon, Cachoeira? Sabe de nada, inocente. Então olha esse:

(Eu sentado no tapete da sala, chega a Sara, do alto dos seus 3 anos de idade. Senta-se perto de mim e puxa assunto)

- Tio Fer. Eu queria falar uma coisa.

- Oi, Sara. Diga.

- Por que você terminou o noivado? Vocês não se amam mais?

Três aninhos, galera. Três aninhos! Mas vocês não estão preparados para essa conversa.


O dia mau.

O dia mau pode ser uma horrorosa nota 9 para uma criança perfeccionista. Ou o término de um compromisso de noivado, entre um casal já em fase mais madura da vida (claro). A descoberta de que a pessoa que você gosta, não te quer. Um desemprego inesperado. A partida de alguém (em suas várias conotações). A notícia de uma doença grave; ou aquela mais temível, incurável. O dia mau pode ser tantas coisas diferentes.

Algo que para a Sarinha, nalgum lugar de sua infância escolar, foi um dia de choro e tristeza (seu dia mau), para mim era motivo de alegria e satisfação, por saber que no bimestre seguinte eu poderia tirar apenas 3, para ficar na média 6. É, eu fazia dessas rs. O dia mau é muito pessoal. O que te parece grave, para mim pode não ser nada. E vice-versa, e versa-e-virce.  Não me atrevo a tentar definir o que ele seja. Cada um tem o seu, e que nada no outro nos pareça frescura. Não estamos naquela pele, nem naquele coração. Não está em nós o entender aquela dor, por aquilo que ela diz ser um dia mau. Se não temos essa condição, que ao menos respeitemos.

Mas uma coisa que eu sei sobre o dia mau, é que ele cedo ou tarde chega.

“No dia da prosperidade goza do bem, mas no dia da adversidade considera; porque também Deus fez a este em oposição àquele...” (Eclesiastes 7:14)

“Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte...” (Salmo 23:4)

“Muitas são as aflições do justo...” (Salmo 34:19)

“E, para que não me exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne...” (1 Coríntios 12:7)

“No mundo tereis aflições...” (João 16:33)

“A minha alma está cheia de tristeza até a morte... Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice...” (Mateus 26:38-39)

Pois é. Ele cedo ou tarde chega. Para a garotinha de 9-10 anos. Para o adulto que viu frustrado um belo sonho. Chega para reis e poderosos. Chegou até para o Senhor da Glória. O dia mau faz parte da vida. Não há razão para surpresas, desespero, decisões precipitadas. Há apenas que se aceitar que ele existe e vai chegar.

De propósito, não transcrevi os textos completos. Quero que o leitor tenha a oportunidade e o privilégio de abrir sua Bíblia, conferindo por si mesmo que no dia mau o Senhor tem sempre a provisão. Ele não prometeu que não haveria vale de sombra da morte, mas garante que estará conosco nessa rota difícil; Ele não disse que não haveria aflições para o justo, mas promete livrá-lo de todas; Ele não disse que não haveria espinhos, mas acalenta a dor que eles causam, mostrando um rico propósito naquilo tudo.

O dia mau vai chegar, cedo ou tarde.


Recentemente, eu tive um dia mau.

Anos atrás, naquela época dos bancos escolares e das colegas que choravam por notas 9, eu tive outro. Na ocasião, uma professora improvável notou e veio falar comigo. Era algo realmente mais sério, não um choro bobo por nota. Expliquei-lhe o contexto, ela entendeu, compadeceu-se e contou-me uma pequena história.

- Fer, havia um homem muito rico e poderoso que passou por algo dificílimo. Seu dia mau chegou.

-  Certo.

- Ele sofria muito por uma perda, afligia-se em seus pensamentos e não conseguia superar. Todo seu dinheiro, todo seu poder, não eram capazes de comprar a paz e o entendimento que ele desejava. Teve então uma ideia. Resolveu buscar na sabedoria uma resposta para aquilo, quem sabe até uma solução. Colocou um prêmio para quem pudesse lhe dizer uma palavra, ou uma frase que servisse para toda e qualquer situação da vida, tanto para os dias maus, como também para os dias bons, as fases de riqueza ou solidão, alegrias ou tristezas. Tinha que servir para tudo!


- (eu ali, só ouvindo tudo com atenção)


- O prêmio prometido era realmente muito bom, atraindo todo tipo de gente sabida ou metida a sabida. Só que tinha um detalhe, uma cláusula escrita com letras pequenas no regulamento: A PALAVRA OU FRASE DEVERIA SER SUCINTA O BASTANTE, PARA SER GRAVADA NUM ANEL. Deveria ser assim, para que ele pudesse levar sempre consigo, e em toda e qualquer situação por que passasse, pudesse olhar para aquela frase universal. Ela deveria servir para todas as situações da vida. Todas!


- Legal.


- As muitas ideias dos sabidos foram sendo apresentadas, sendo uma a uma reprovadas. Ou eram boas, mas longas demais para caber no anel. Ou eram pequenas, mas não serviam para tudo. Estava difícil conciliar os dois critérios: alcance universal + ser sucinta. Até que finalmente apareceu a vencedora. E este, Fernando, é o ensino que eu quero que você leve desta nossa conversa, para toda a sua vida. A frase que venceu o concurso da nossa história, é a mesma frase que você pode utilizar em TODOS OS MOMENTOS DA SUA VIDA.


- Qual é a frase, Prôfe? (sim, 30 anos antes da Sara a gente falava “Prôfe” também)


- ISSO VAI PASSAR.


- ... (eu ouvindo)


- Isso por que você está passando agora passará, Fer. Parece que não, eu sei. Parece que tudo vai desmoronar, sem saída. Mas passará, e as coisas vão melhorar. E sabe o quê mais?


- O que, Prôfe?


- Quando as coisas estiverem ótimas, tudo funcionando, e você se sentir invencível, nada podendo ficar melhor... tudo aquilo vai passar também. Não necessariamente para um quadro seguinte terrível e arrasador, mas quem sabe para algo não tão excelente quanto era até há pouco. E este novo contexto vai existir por um tempo, para também passar. E o seguinte, idem. Idem. Idem. Tudo isto passará, Fer.


- Uooooow


- Circunstancialmente falando, neste plano, tudo passará.



Assim, se é certo que o dia mau chega, é muito certo também  ele vai embora. A tristeza faz parte do processo. Os olhares no vazio. Os sonhos frustrados. Não é fácil lidar. Quase toda vez, rola aquela “certeza” de que acabou para sempre, e que nada te fará sorrir como antes. Eu já provei dessas duas sensações: a tal "certeza" da tristeza eterna, como também a alegria por voltar a sorrir.


A eternidade das coisas não é agora. Haverá este "tempo", que na verdade de tempo nada tem, porque a característica essencial da eternidade é a atemporalidade. As coisas apenas são, sem relógios ou prazos de validade. Alegria eterna ou tristeza eterna, a depender de uma de duas frases que cada ouvido deste mundo ouvirá do Senhor da Glória. Ele mesmo, que um dia, em forma e totalmente homem, provou da angustiante tristeza de não estar na presença do Pai. Seu dia mau foi o "Everest dos dias maus". "Deus meu, por que me abandonaste?" Três dias maus, para enfim vencer a Morte e retomar sua condição eterna, e a todos poder oferecer novamente alegria eterna, aquela que era seu plano original, desde sempre.


Alegria eterna? Sim, mas só com Ele. Não mais a circunstancial e datada. Tristeza eterna? Dia mau sem prazo final? Sim, infelizmente haverá também. Longe dEle.


Dois caminhos. Sem muro para subir e ficar observando as multidões caminhantes. Ou se está num, ou noutro. Mensagem antiga, bem antiga; e mais urgente do que nunca.

Um comentário:

  1. Por isto digo: viva intensamente os bons momentos, pois ele passará!

    Mas para os dias maus, ainda bem que eles também passarão!

    Muito bom o texto!

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